A Dívida Pública Federal (DPF) encerrou agosto em R$ 9,293 trilhões, praticamente estável em relação ao mês anterior. O estoque subiu 0,04% na comparação com julho, quando estava em R$ 9,289 trilhões, segundo dados divulgados pelo Tesouro Nacional nesta segunda-feira (28).
A estabilidade ocorreu porque o governo resgatou mais títulos do que emitiu durante o mês. Ainda assim, a incorporação dos juros que incidem sobre a dívida foi suficiente para manter o estoque em alta. O Tesouro resgatou R$ 84,43 bilhões a mais do que emitiu, mas reconheceu R$ 88,39 bilhões em juros no período.
Como a dívida pública chegou a R$ 9,293 trilhões
A DPF representa o conjunto de compromissos financeiros do governo federal com investidores, instituições financeiras e credores nacionais e estrangeiros. Ela é formada principalmente pela emissão de títulos públicos, usados para financiar as despesas do governo e administrar o fluxo de caixa da União.
O resultado mensal não depende apenas da quantidade de títulos emitidos ou resgatados. Todos os meses, o Tesouro incorpora ao estoque os juros previstos nos contratos. Na prática, mesmo quando há resgate líquido de papéis, a dívida pode crescer se os encargos financeiros forem maiores do que o volume retirado do mercado.
Foi o que ocorreu em agosto: os resgates reduziram o estoque em R$ 84,43 bilhões, mas a apropriação de juros acrescentou R$ 88,39 bilhões. A diferença levou ao avanço de R$ 4 bilhões no total da dívida, equivalente à alta de 0,04% registrada no mês.
Dívida interna concentra maior parte dos compromissos
A maior parcela da dívida está no mercado brasileiro. A Dívida Pública Mobiliária Federal interna (DPMFi), formada por títulos emitidos no país, recuou 0,05% em agosto e terminou o mês em R$ 8,944 trilhões.
Já a Dívida Pública Federal externa (DPFe) cresceu 2,41%, chegando a R$ 348,26 bilhões. Esse valor inclui compromissos de diferentes naturezas:
- R$ 299,70 bilhões em dívida mobiliária externa;
- R$ 48,56 bilhões em dívida contratual, como financiamentos obtidos no exterior.
A variação da dívida externa pode ser influenciada por emissões, pagamentos e também pela conversão dos valores para reais. Já a dívida interna acompanha principalmente as condições do mercado doméstico, incluindo juros, inflação e a demanda por títulos públicos.
Títulos ligados à Selic atingem maior participação da série histórica
Um dos principais destaques do relatório foi o aumento da participação dos títulos corrigidos pela Selic, a taxa básica de juros da economia brasileira. Esses papéis passaram de 51,11% da dívida em julho para 52,74% em agosto, o maior percentual da série histórica, de acordo com o Tesouro.
Títulos atrelados à Selic têm remuneração vinculada à taxa definida pelo Banco Central. Quando a taxa básica está elevada, o custo desses papéis também tende a aumentar. Por outro lado, esse tipo de título costuma ser mais procurado em períodos de incerteza, porque acompanha as condições correntes de juros e apresenta menor risco de perda para o investidor que precisa resgatar o papel antes do vencimento.
O Plano Anual de Financiamento (PAF) de 2026 prevê que a participação dos títulos vinculados à Selic fique entre 49% e 53% da dívida. A faixa havia sido revisada para cima no mês anterior. A composição registrada em agosto ficou assim:
- 52,74% em títulos de taxa flutuante, vinculados à Selic;
- 23,22% em títulos indexados à inflação;
- 20,31% em títulos prefixados;
- 3,74% em títulos cambiais.
Os títulos prefixados têm remuneração definida no momento da compra. Os papéis indexados à inflação combinam uma variação de preços, geralmente medida por um índice oficial, com uma taxa real. Já os títulos cambiais acompanham a variação de moedas estrangeiras, principalmente o dólar. A distribuição entre esses grupos é uma estratégia do Tesouro para administrar custos, riscos e prazos de vencimento.
Prazo médio aumenta e vencimentos de curto prazo diminuem
O relatório também apontou melhora no perfil de vencimento da dívida. O prazo médio passou de 4,05 anos para 4,10 anos em agosto. Ao mesmo tempo, caiu a parcela dos compromissos que vencem em até 12 meses, de 18,91% para 16,39%.
Um prazo médio maior reduz a necessidade de o governo refinanciar uma parcela muito grande da dívida em intervalos curtos. O refinanciamento ocorre quando novos títulos são emitidos para pagar papéis que estão vencendo. Quanto maior a concentração de vencimentos no curto prazo, maior a exposição do Tesouro às condições do mercado no momento da renovação.
Apesar da melhora no prazo, o custo médio acumulado em 12 meses aumentou. O indicador passou de 12,45% ao ano, em julho, para 12,59% ao ano, em agosto. A elevação reflete o peso dos juros incidentes sobre os títulos que compõem a dívida.
Reserva de liquidez do Tesouro recua 11,89%
A reserva de liquidez do Tesouro Nacional, conhecida como colchão da dívida, caiu 11,89% em termos nominais durante agosto. O volume passou de R$ 1,37 trilhão, em julho, para R$ 1,208 trilhão no mês seguinte.
Essa reserva funciona como uma proteção financeira para cobrir vencimentos e outras obrigações da dívida pública, reduzindo a dependência de novas emissões em momentos de maior instabilidade ou de condições menos favoráveis no mercado. A queda mensal não significa, isoladamente, uma mudança definitiva na capacidade de pagamento, mas reduz o volume disponível como margem imediata de segurança.
Projeção para o fim de 2026
O Tesouro Nacional prevê que a Dívida Pública Federal termine 2026 entre R$ 9,7 trilhões e R$ 10,3 trilhões. A projeção considera a evolução esperada dos juros, das emissões, dos resgates e da composição dos títulos ao longo do ano.
O estoque da dívida é acompanhado por investidores, empresas e governos porque influencia o custo de financiamento do setor público e pode afetar as condições de crédito na economia. Os dados mensais, no entanto, devem ser analisados junto com o prazo médio, o custo dos juros, a composição dos títulos e o volume de vencimentos próximos, e não apenas pelo valor total acumulado.