A candidata à Presidência da República Samara Martins, do partido Unidade Popular (UP), defende uma mudança profunda no modelo econômico e político brasileiro. Entre as principais propostas apresentadas no programa de governo estão a elevação em 100% do salário mínimo, o fim da escala 6x1 e a adoção de uma jornada de trabalho com quatro dias de expediente e três dias de descanso, conhecida como escala 4x3.
O documento, intitulado Unidade Popular pelo Socialismo, afirma que o objetivo da legenda é superar as desigualdades associadas ao capitalismo e construir uma sociedade socialista. A proposta parte de um diagnóstico de que o Brasil possui grande riqueza, mas mantém parcela significativa da população em situação de pobreza e com acesso limitado a serviços básicos.
Programa prevê aumento de 100% no salário mínimo
Uma das medidas de maior impacto direto para os trabalhadores é a promessa de dobrar o salário mínimo. O programa não apresenta, no trecho divulgado, um valor final nem um cronograma para a implantação da medida. A expressão “elevação em 100%” significa, em termos práticos, um aumento equivalente ao valor atual do piso nacional, caso a proposta fosse aplicada integralmente.
O salário mínimo serve como referência para a remuneração de trabalhadores formais, benefícios previdenciários e diversos pagamentos vinculados à legislação brasileira. Por isso, uma mudança desse tamanho afetaria não apenas quem recebe o piso, mas também empresas, governos, aposentadorias e benefícios sociais. O impacto dependeria da forma de execução, das fontes de financiamento e das regras definidas para preservar o equilíbrio das contas públicas.
O programa relaciona o aumento salarial à redução da jornada de trabalho. A defesa da UP é que os ganhos de produtividade e a riqueza produzida no país sejam distribuídos de maneira mais ampla, em vez de se concentrarem entre os proprietários de empresas e os grupos de maior renda.
Fim da escala 6x1 e proposta de jornada 4x3
Samara Martins também propõe o fim da escala 6x1, modelo em que o trabalhador cumpre seis dias de atividade e tem apenas um dia de descanso. A alternativa apresentada é uma escala 4x3, com quatro dias de trabalho e três dias de folga. A medida seria acompanhada de redução da jornada e aumento salarial, segundo o programa.
A discussão sobre a escala 6x1 ganhou espaço no debate público por envolver trabalhadores do comércio, dos serviços, da alimentação, da limpeza, da segurança e de outras áreas que funcionam em horários ampliados, inclusive aos fins de semana e feriados. Na prática, a adoção de uma jornada 4x3 exigiria mudanças na organização das equipes, nos contratos de trabalho e na cobertura dos serviços.
O programa não detalha, no conteúdo apresentado, como a proposta seria aplicada a setores com funcionamento contínuo, como hospitais, transporte, indústria, comércio e serviços essenciais. Também não informa se haveria períodos de transição ou regras diferentes para empresas de portes distintos. Esses pontos seriam decisivos para transformar a ideia em política pública.
Saúde, educação e moradia como direitos
A UP afirma que áreas como saúde, educação, água, energia, saneamento, moradia, transporte, cultura e comunicação devem ser tratadas como direitos sociais, e não como mercadorias. A formulação amplia o papel atribuído ao Estado na oferta de serviços e na definição de políticas públicas.
O partido também defende o fortalecimento do Sistema Único de Saúde (SUS), embora o trecho divulgado não apresente valores orçamentários ou metas específicas para a rede pública. A candidata Samara Martins é cirurgiã-dentista e trabalha no SUS no Rio Grande do Norte, experiência que integra o perfil da cabeça de chapa.
Na área econômica, o programa propõe a reindustrialização do país, o fortalecimento da ciência e a recuperação do controle público sobre setores considerados estratégicos. O texto também inclui propostas de reforma agrária e de soberania nacional. A ideia geral é reduzir a dependência externa e aumentar a participação do Estado em áreas consideradas essenciais para o desenvolvimento brasileiro.
Chapa da Unidade Popular é formada exclusivamente por mulheres
A candidatura da UP à Presidência em 2026 é formada exclusivamente por mulheres. Samara Martins, de 38 anos, encabeça a chapa. Ela foi candidata a vice-presidente pela legenda nas eleições de 2022, ao lado de Leonardo Péricles, que atualmente preside o partido.
A candidata a vice-presidente é Raquel Brício, de 34 anos. Guarda portuária e dirigente sindical no Pará, ela já disputou eleições para deputada estadual e para a Prefeitura de Belém. A composição da chapa é apresentada pelo partido como parte de sua atuação voltada à representação de trabalhadores e de grupos sociais historicamente sub-representados na política institucional.
Partido defende transformação estrutural do sistema
Criada em 2016, a Unidade Popular se identifica com o campo da esquerda radical. O programa de governo não se limita a propor alterações pontuais em impostos, salários ou serviços públicos. O documento afirma que é necessário modificar a estrutura econômica do país e substituir a lógica de mercado por um modelo baseado na prioridade às necessidades populares.
Entre as diretrizes apresentadas estão:
- elevação em 100% do salário mínimo;
- fim da escala 6x1 e adoção da jornada 4x3;
- redução da jornada de trabalho com aumento salarial;
- reindustrialização e fortalecimento da ciência;
- reforma agrária e soberania nacional;
- ampliação do controle público sobre setores estratégicos.
O texto classifica a desigualdade brasileira como resultado de um sistema que, na avaliação do partido, coloca os interesses dos capitalistas acima das necessidades da população. “O Brasil é um dos países mais ricos do mundo, mas o povo vive na pobreza. Essa desigualdade não é natural”, afirma o documento.
Em outra passagem, a legenda resume sua posição sobre os serviços públicos: “Defendemos que saúde, educação, água, energia, saneamento, moradia, transporte, cultura e comunicação sejam direitos, e não mercadorias”.
Propostas ainda dependem de regras de execução
Como ocorre com programas de governo, as medidas apresentadas estabelecem objetivos políticos, mas nem todas vêm acompanhadas de detalhes sobre custos, prazos ou instrumentos legais. A implantação de uma nova escala de trabalho e a duplicação do salário mínimo, por exemplo, dependeriam de decisões do Congresso Nacional, regulamentações e definição das fontes de recursos.
A proposta também teria efeitos diferentes conforme o setor da economia. Trabalhadores que recebem o salário mínimo poderiam ter aumento imediato de renda, enquanto empregadores enfrentariam elevação dos custos trabalhistas. No setor público, a mudança alcançaria despesas com pessoal e benefícios. Já na Previdência Social, o reajuste do piso poderia pressionar os gastos vinculados ao salário mínimo.
O programa da candidata, portanto, apresenta uma plataforma de transformação ampla, com prioridade para a valorização do trabalho, a expansão dos direitos sociais e a presença direta do Estado na economia. A viabilidade e o formato final das medidas dependeriam do resultado eleitoral e das negociações políticas necessárias para sua aprovação.