O presidente Luiz Inácio Lula da Silva embarca neste domingo (20) para Nova York, nos Estados Unidos, onde participará da 81ª Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU). No discurso de abertura da reunião de alto nível, previsto para terça-feira (22), Lula deverá defender o fortalecimento do multilateralismo, a negociação como caminho para resolver conflitos e a reforma do Conselho de Segurança das Nações Unidas.
A viagem ocorre em um cenário internacional marcado pela multiplicação de guerras, crises humanitárias e disputas diplomáticas. A posição tradicional do Brasil é de que problemas dessa dimensão devem ser tratados por meio da cooperação entre os países e das instituições internacionais, e não apenas por decisões unilaterais das grandes potências.
Lula deve defender negociação e respeito ao direito internacional
O discurso brasileiro deve apresentar a visão do país sobre os principais temas da agenda internacional. Entre os pontos esperados estão a defesa da negociação para a solução de disputas, o respeito ao direito internacional humanitário e o princípio de não interferência em assuntos internos de outros países.
O direito internacional humanitário reúne normas destinadas a limitar os efeitos dos conflitos armados. Na prática, ele busca proteger a população civil, pessoas feridas, profissionais de saúde e outros grupos que não participam diretamente dos combates. A defesa desse conjunto de regras costuma ganhar peso em períodos de guerras prolongadas e de aumento do número de deslocados e refugiados.
Já o multilateralismo é a atuação conjunta de vários países para enfrentar problemas que ultrapassam fronteiras. A ONU é o principal espaço institucional desse diálogo, com debates que envolvem segurança, direitos humanos, desenvolvimento, mudanças climáticas e ajuda humanitária. Para o governo brasileiro, a cooperação internacional é necessária para evitar que as decisões globais fiquem concentradas em poucos países.
Brasil quer reforma do Conselho de Segurança da ONU
A reforma das Nações Unidas, especialmente do Conselho de Segurança, deve estar entre os temas abordados por Lula. O órgão é responsável por discutir questões relacionadas à paz e à segurança internacionais e pode aprovar resoluções, sanções e medidas para responder a crises.
O Conselho de Segurança é formado por 15 países: cinco membros permanentes, com poder de veto, e dez integrantes eleitos para mandatos temporários. Os membros permanentes são Estados Unidos, Rússia, China, França e Reino Unido. O Brasil defende há anos uma atualização da composição e do funcionamento do órgão, sob o argumento de que sua estrutura não reflete adequadamente a realidade política e econômica do mundo atual.
Na avaliação brasileira, a dificuldade do conselho para responder de forma efetiva a conflitos internacionais mostra a necessidade de mudanças. A proposta de reforma busca ampliar a representatividade regional e tornar as decisões sobre segurança internacional mais legítimas. O tema, porém, depende de negociações complexas, principalmente porque qualquer alteração exige o acordo dos atuais membros permanentes e dos demais países da organização.
Agenda em Nova York inclui encontros com Guterres e Mamdani
Lula deve chegar a Nova York ainda na noite de domingo. Na segunda-feira (21), estão previstos encontros bilaterais reservados com outros chefes de Estado, mas os nomes ainda não foram anunciados. Reuniões bilaterais são usadas pelos governos para tratar de relações diplomáticas, acordos, crises regionais e temas de interesse econômico ou político.
Na terça-feira pela manhã, o presidente terá uma reunião com António Guterres, secretário-geral da ONU, que está na fase final de seu mandato à frente da entidade. O encontro deverá permitir uma troca de avaliações sobre os principais conflitos internacionais e sobre o papel das Nações Unidas diante das limitações do atual sistema de segurança coletiva.
Também está previsto um encontro com Zohran Mamdani, prefeito de Nova York e integrante do Partido Democrata, que governa a cidade desde o início do ano. A reunião amplia a agenda de Lula para além das negociações entre governos nacionais e pode tratar de temas ligados à administração da cidade, à comunidade internacional e às relações entre Nova York e o Brasil.
Depois do discurso na Assembleia Geral, Lula retorna ao Brasil ainda na terça-feira.
Possível encontro com Donald Trump não foi confirmado
O governo brasileiro não informou se existe expectativa de uma reunião entre Lula e o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Até o momento, não há confirmação de encontro por parte de nenhum dos dois governos.
Trump será o segundo chefe de Estado a falar na sessão, logo depois de Lula. Por isso, os dois líderes eventualmente poderão se cruzar nos bastidores do plenário. No ano passado, eles tiveram um breve contato, mas não há indicação de que uma nova conversa esteja programada durante a atual passagem do presidente brasileiro por Nova York.
Décima primeira participação de Lula na Assembleia Geral
Esta será a 11ª participação de Lula na Assembleia Geral da ONU como presidente da República. Ao longo de seus três mandatos, ele só não compareceu ao encontro em 2010.
A abertura da Assembleia Geral tradicionalmente dá ao Brasil o primeiro discurso da sessão de alto nível. A posição foi consolidada ao longo das décadas e oferece ao governo brasileiro uma das principais oportunidades para apresentar suas prioridades de política externa diante de representantes de quase todos os países do mundo.
Em 2026, a participação de Lula ocorre com foco na defesa das instituições multilaterais e na tentativa de recolocar a reforma do Conselho de Segurança no centro do debate. Para o Brasil, a atualização do órgão é parte de uma discussão mais ampla sobre a capacidade da ONU de prevenir conflitos, responder a crises humanitárias e representar a diversidade do cenário internacional.