A deputada federal Duda Salabert (PSOL-MG) defendeu uma universidade comprometida com a redução das desigualdades e com a inclusão de grupos historicamente marginalizados durante a conferência Democracia e Diferenças, realizada na noite de quarta-feira, no Teatro Municipal de Alfenas. O encontro reuniu representantes da comunidade acadêmica e da sociedade civil para discutir democracia, educação e os desafios enfrentados pela população LGBTQIA+.
Promovido pelo Amhor (Acervo de Memória e História do Orgulho LGBTQIA+ no Sul de Minas) e pelo Instituto de Ciências Humanas e Letras (ICHL) da Unifal — Universidade Federal de Alfenas, o evento teve como eixo principal a relação entre conhecimento, participação social e enfrentamento das diferenças. A proposta foi tratar a democracia não apenas como um sistema político, mas também como uma prática que depende do reconhecimento de direitos e da presença de grupos diversos nos espaços de decisão.
Duda Salabert cita Darcy Ribeiro e defende a “Universidade Necessária”
Durante a palestra, Duda Salabert recuperou o conceito de Universidade Necessária, formulado pelo antropólogo Darcy Ribeiro em obra publicada em 1969. A ideia parte da defesa de uma instituição de ensino superior conectada à realidade do país e capaz de contribuir para a superação de problemas sociais, em vez de permanecer afastada das necessidades da população.
Na avaliação da deputada, a universidade não deve tratar o conhecimento acadêmico como um objetivo isolado. A produção científica, a formação profissional e o acesso à educação precisam estar ligados à construção de uma sociedade mais justa e à promoção da dignidade humana. Esse entendimento amplia o papel das instituições de ensino superior, que passam a ser cobradas também por sua responsabilidade pública e pelo impacto que produzem fora dos muros dos campi.
A discussão tem relação direta com a realidade de Alfenas, cidade que abriga a Unifal e recebe estudantes, pesquisadores e profissionais de diferentes regiões. Além de formar mão de obra qualificada, uma universidade federal participa de projetos de extensão, pesquisas e debates que influenciam políticas públicas e a vida comunitária. Para a parlamentar, essa atuação precisa considerar especialmente as pessoas que enfrentam barreiras para acessar a escola, o ensino superior e os espaços de poder.
Dados apresentados mostram exclusão da população trans
Um dos principais pontos da exposição foi a situação de vulnerabilidade da população trans no Brasil. Segundo os indicadores apresentados pela deputada, 90% das travestis estão na prostituição e, em Belo Horizonte, 90% não concluíram o ensino médio. A palestra também citou que aproximadamente 40% dessa população convivem com o HIV.
Os números foram usados para demonstrar como a exclusão educacional, a falta de oportunidades de trabalho e a dificuldade de acesso a serviços públicos se relacionam. Quando uma pessoa é afastada da escola ou não consegue concluir sua formação, suas possibilidades de inserção profissional diminuem. Essa condição pode aumentar a exposição à pobreza, à violência e a problemas de saúde, criando um ciclo de vulnerabilidade que não se resolve apenas com ações pontuais.
Os dados apresentados no evento também reforçam que a população trans não pode ser vista somente a partir de situações de risco. A garantia de direitos envolve políticas de permanência escolar, combate à discriminação, acesso à saúde, oportunidades de emprego e participação nos espaços de decisão. Para isso, são necessárias ações articuladas entre poder público, instituições de ensino, serviços de saúde e organizações da sociedade civil.
Educação como instrumento de transformação social
Ao abordar o papel dos educadores, Duda questionou diretamente a responsabilidade de quem trabalha no ensino e na pesquisa. “De que maneira a sua carreira e o seu currículo lattes estão a serviço de transformar a sociedade?”, perguntou a deputada durante a palestra.
A provocação foi dirigida principalmente a professores, pesquisadores e profissionais que ocupam posições de influência dentro das universidades. O currículo acadêmico, nesse sentido, não deveria ser medido apenas pela quantidade de publicações ou títulos acumulados, mas também pela capacidade de produzir conhecimento relevante para a população e contribuir para mudanças concretas.
A presença de pessoas LGBTQIA+ e de outros grupos historicamente excluídos em salas de aula, laboratórios, cargos de gestão e espaços políticos foi apontada como uma forma de resistência. Para a deputada, a ocupação desses ambientes por “corpos dissonantes” ajuda a transformar a própria imagem de quem pode produzir conhecimento e participar das decisões da sociedade.
“Privilégios precisam ser compartilhados”, afirma deputada
Outro tema destacado foi o uso social dos privilégios. Duda Salabert defendeu que pessoas com maior acesso à educação, à renda e às oportunidades devem assumir uma postura ativa diante das desigualdades. A ideia foi resumida no lema de que “privilégios precisam ser compartilhados”.
A parlamentar citou uma experiência de quando atuava como professora. Segundo o relato, ela destinou parte dos próprios rendimentos para um financiamento coletivo voltado à criação de um espaço educacional para pessoas marginalizadas. O exemplo foi apresentado como uma demonstração de que a transformação social também depende de iniciativas individuais, especialmente de quem já conseguiu superar algumas barreiras de acesso.
O compartilhamento de privilégios, porém, não substitui a responsabilidade do Estado na formulação de políticas públicas. Ações comunitárias e iniciativas de solidariedade podem ampliar oportunidades, mas a garantia de direitos básicos depende de políticas permanentes, orçamento, fiscalização e compromisso institucional. O debate realizado em Alfenas colocou essas duas dimensões lado a lado: a responsabilidade pessoal de quem tem acesso a recursos e a obrigação pública de enfrentar desigualdades estruturais.
Evento em Alfenas relaciona democracia e reconhecimento das diferenças
Ao promover a conferência, o Amhor e o ICHL contribuíram para manter em evidência temas que muitas vezes ficam fora do debate cotidiano, como a memória da população LGBTQIA+, a violência contra pessoas trans e a desigualdade no acesso à educação. O formato também aproximou a discussão acadêmica da comunidade, levando o debate para um espaço cultural central da cidade, o Teatro Municipal de Alfenas.
A conferência Democracia e Diferenças reforçou que a democracia depende da possibilidade de diferentes grupos participarem da vida pública em condições de respeito e igualdade. Isso inclui o direito de estudar, trabalhar, acessar a saúde, ocupar cargos de liderança e ter sua história reconhecida.
Ao final, a mensagem central apresentada foi a de que a inclusão não deve ser tratada como concessão ou favor. Para que a democracia seja efetiva, as diferenças precisam estar presentes no centro das instituições, das políticas públicas e da produção de conhecimento. Em Alfenas, o encontro abriu espaço para essa reflexão e para o questionamento sobre como universidades, educadores e cidadãos podem transformar seus recursos e posições em instrumentos de inclusão social.