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Cultura

Quilombo urbano na Glória, no Rio, é tombado pelo Iphan e reforça resistência comunitária

Redação Saiu Agora
27 de setembro de 2026 às 15:21
Quilombo urbano na Glória, no Rio, é tombado pelo Iphan e reforça resistência comunitária
Foto: Divulgação
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Quatorze famílias do Quilombo Urbano Ferreira Diniz, na Glória, zona sul do Rio de Janeiro, passaram a contar com uma proteção histórica e cultural reconhecida pelo poder público. O terreno da Rua Cândido Mendes, que reúne casarões, quintal e espaços de convivência, foi tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), em uma medida que reconhece a importância da comunidade para a memória da população negra e para a formação cultural da cidade.

O local é conhecido também pela Feijoada da Tia Cida, preparada por Maria Aparecida Ferreira, uma das referências da comunidade. O prato servido no quintal atrai moradores, visitantes e produtores de conteúdo ligados à gastronomia. Mais do que uma atividade culinária, a feijoada se transformou em fonte de renda, ponto de encontro e instrumento de visibilidade para a história das famílias que vivem no terreno há décadas.

Tombamento protege terreno, casarões e referências culturais

O tombamento alcança toda a área ocupada pelo quilombo, incluindo o quintal, os casarões e os espaços usados coletivamente. O Iphan é o órgão federal responsável pela proteção de bens culturais considerados relevantes para a história e a identidade do país. Na prática, o reconhecimento impõe regras para intervenções físicas no bem protegido e cria mecanismos para preservar suas características históricas, arquitetônicas e culturais.

A medida ocorre em um bairro valorizado do Rio de Janeiro, onde a pressão imobiliária é um dos fatores que ameaçam a permanência de comunidades tradicionais. Nesse contexto, o reconhecimento do Quilombo Urbano Ferreira Diniz representa uma forma de registrar oficialmente que aquele espaço não é apenas um terreno ou um conjunto de construções antigas. Ele também guarda relações familiares, práticas culturais, formas de trabalho e memórias transmitidas entre gerações.

Entre as ações previstas como desdobramento da proteção está a elaboração de um inventário de referências e manifestações culturais do quilombo. Esse tipo de levantamento pode reunir informações sobre os moradores, as festas, os modos de fazer, a culinária, os espaços de uso comunitário e outras práticas que ajudam a explicar a importância do local.

Famílias estão no terreno desde a década de 1950

A história da comunidade está ligada às famílias Ferreira e Diniz, que têm raízes em Minas Gerais. A ocupação começou na década de 1950, quando Maria Isabel Ferreira, descendente de africanos escravizados em Minas Gerais, se mudou para o casarão principal depois de se casar com Antônio Dias Pessanha, que trabalhava como zelador do prédio.

O imóvel havia funcionado como uma antiga hospedagem. Com o passar do tempo, os antigos proprietários abandonaram os casarões, mas as famílias permaneceram no local. A família ampliada cresceu no terreno e manteve os vínculos de parentesco, vizinhança e cooperação que sustentam a comunidade até hoje.

Em 2023, os moradores foram reconhecidos como quilombolas pela Fundação Cultural Palmares. O reconhecimento levou em conta a permanência das famílias, a organização comunitária e os laços históricos relacionados à população negra e ao período colonial brasileiro. A certificação pela Fundação Palmares é uma etapa importante para que comunidades quilombolas tenham sua identidade reconhecida pelo Estado e possam buscar políticas públicas específicas.

O tombamento pelo Iphan tem natureza diferente desse reconhecimento. Enquanto a certificação identifica e reconhece a comunidade quilombola, o tombamento protege o patrimônio cultural material e imaterial associado ao lugar. As duas medidas, porém, se complementam ao reforçar a necessidade de preservar tanto o espaço físico quanto as práticas e memórias mantidas pelos moradores.

Feijoada da Tia Cida virou fonte de renda e visibilidade

Maria Aparecida Ferreira, conhecida como Tia Cida, começou a ganhar projeção com a comida preparada no quintal da comunidade. Antes disso, trabalhou no comércio e vendeu marmitas. Depois da pandemia, transformou a feijoada em uma atividade mais estruturada, como forma de sobrevivência e também de divulgação da causa quilombola.

Às sextas-feiras, desde cedo, Cida se dedica às panelas. A refeição é servida no quintal, entre árvores como coqueiro, goiabeira, bananeiras, uma paineira-rosa e um raro pé de abiu. O ambiente, além de receber os clientes, funciona como espaço de convivência para os moradores e visitantes.

“Eu me sinto muito honrada em fazer essa feijoada, lembro da minha mãe, das minhas...”, afirmou Cida, em uma declaração que associa o trabalho atual à memória familiar. A fala reforça o papel da culinária como forma de preservar lembranças e manter viva uma tradição construída dentro da própria comunidade.

O aumento da procura ocorreu depois que produtores de conteúdo sobre gastronomia passaram a divulgar o trabalho nas redes sociais. A demanda cresceu e a atividade passou a envolver outros quilombolas, responsáveis pelo atendimento aos visitantes. A renda obtida ajuda as famílias e também contribui para a realização de ações comunitárias.

  • Local: Rua Cândido Mendes, na Glória, zona sul do Rio de Janeiro;
  • Comunidade: Quilombo Urbano Ferreira Diniz;
  • Moradores: 14 famílias das linhagens Ferreira e Diniz;
  • Atividade cultural e econômica: Feijoada da Tia Cida, servida às sextas-feiras;
  • Proteção: tombamento de toda a área pelo Iphan;
  • Reconhecimento quilombola: certificação concedida pela Fundação Cultural Palmares em 2023.

Patrimônio quilombola em área urbana

A existência do Ferreira Diniz mostra que comunidades quilombolas não estão restritas a áreas rurais ou distantes dos grandes centros. Quilombos urbanos também podem preservar formas próprias de organização, vínculos familiares, práticas religiosas, culinária, festas e modos de ocupação do território.

Essa dimensão é especialmente importante em regiões submetidas à valorização imobiliária. Quando um espaço comunitário é reconhecido como patrimônio, sua história passa a integrar oficialmente a memória da cidade. Isso não elimina, por si só, todos os conflitos relacionados à propriedade, à moradia ou à permanência dos moradores, mas amplia os instrumentos de proteção e dá visibilidade às reivindicações da comunidade.

No caso do Quilombo Urbano Ferreira Diniz, o reconhecimento reúne diferentes camadas de uma mesma história: a chegada dos antepassados ao casarão, a permanência das famílias, a adaptação dos imóveis ao longo do tempo, o quintal como espaço de encontro e a feijoada como atividade que sustenta e mobiliza os moradores. A proteção do Iphan passa a formalizar o valor desse conjunto para o Rio de Janeiro e para a história da população negra no Brasil.

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