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Economia

Levantamento aponta que só 1,5% das vagas para PcDs são de liderança

Redação Saiu Agora
19 de setembro de 2026 às 14:10
Levantamento aponta que só 1,5% das vagas para PcDs são de liderança
Foto: Divulgação
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Apenas 1,5% das vagas destinadas a pessoas com deficiência (PcDs) são para posições técnicas, gerenciais ou de liderança, enquanto os cargos operacionais concentram 98,5% das oportunidades. Os dados fazem parte de um levantamento da startup Egalite, com base em 116 mil profissionais cadastrados e mais de 19 mil vagas ativas na plataforma Inclui PcD.

O resultado mostra que o mercado de trabalho ainda oferece poucas oportunidades de crescimento profissional para pessoas com deficiência. Embora a maior parte das contratações esteja concentrada em funções operacionais, 31% das candidaturas espontâneas feitas por profissionais PcDs são direcionadas a cargos técnicos e gerenciais. A diferença entre o perfil das vagas e o interesse dos candidatos indica que há demanda por qualificação e ascensão profissional, mas poucas portas abertas para esses níveis.

Maioria das oportunidades está em cargos operacionais

De acordo com o levantamento, as empresas concentram a oferta de vagas operacionais principalmente porque setores como o varejo reúnem grande quantidade de postos de entrada. Essas funções costumam estar ligadas ao atendimento, à operação de lojas, estoques, serviços administrativos básicos e outras atividades que formam a base das estruturas empresariais.

O cenário, porém, não significa que pessoas com deficiência estejam interessadas apenas em cargos de entrada. A pesquisa mostra que quase um terço das candidaturas espontâneas é voltado a posições técnicas ou gerenciais. Isso inclui profissionais que buscam reconhecimento de experiência, melhores salários e possibilidade de ocupar funções de coordenação, supervisão e direção.

“Não existem cargos de liderança na mesma proporção que cargos de entrada”, afirmou Djalma Scartezini, um dos fundadores da Egalite e embaixador e CEO da Rede Empresarial de Inclusão Social.

Scartezini também reconheceu que ainda existe falta de vagas de gerência destinadas à população PcD. “Eu sendo um executivo com deficiência também não estou contente de ver poucos pares com deficiência em cargos de direção. O que eu acho que é positivo é que tem avançado esse número”, disse.

Empresas ampliam inclusão para além da cota

A legislação brasileira estabelece a chamada Lei de Cotas para pessoas com deficiência. Pela Lei Federal nº 8.213/1991, empresas com 100 ou mais empregados devem reservar de 2% a 5% dos postos de trabalho para beneficiários reabilitados ou pessoas com deficiência, conforme o número total de funcionários.

A exigência legal busca garantir a entrada dessas pessoas no mercado formal. No entanto, a inclusão não se resume ao preenchimento de vagas. Também envolve acessibilidade, adaptação do ambiente, igualdade salarial, oferta de capacitação e possibilidade real de promoção.

Nesse aspecto, o levantamento identificou um movimento positivo: metade das organizações analisadas já disponibiliza todas as suas vagas para pessoas com deficiência, desde posições de entrada até cargos de liderança e especialistas. Isso significa que essas empresas ultrapassam a lógica de separar determinadas funções para PcDs e passam a considerar esses profissionais em diferentes áreas e níveis hierárquicos.

A mudança é importante porque a reserva de vagas, sozinha, não garante diversidade nos cargos de decisão. Quando as oportunidades ficam restritas às funções operacionais, o profissional pode ser contratado, mas encontra obstáculos para construir uma carreira de longo prazo dentro da empresa.

Feira abriu quase 4 mil vagas de liderança e especialização

Como exemplo de avanço, Djalma Scartezini citou a última feira Inclui PcD, iniciativa da Egalite que abriu 19 mil vagas para pessoas com deficiência. Desse total, quase 4 mil oportunidades eram destinadas a especialistas, coordenadores e profissionais em primeiros estágios de liderança.

  • 116 mil profissionais PcDs foram considerados no levantamento;
  • mais de 19 mil vagas estavam ativas na plataforma analisada;
  • 98,5% das oportunidades eram para posições operacionais;
  • 1,5% das vagas correspondia a cargos técnicos e gerenciais;
  • quase 4 mil vagas de especialização e liderança foram abertas na feira citada.

O evento representa uma tentativa de aproximar candidatos de oportunidades mais qualificadas. Para empresas, a ampliação das vagas pode ajudar a formar equipes mais diversas em setores estratégicos. Para os profissionais, representa a chance de disputar posições compatíveis com sua formação e experiência, e não apenas funções básicas.

Pretensão salarial fica abaixo do salário mínimo

Outro dado chama atenção: a pretensão salarial mediana dos candidatos PcDs foi de R$ 1.450, valor abaixo do salário mínimo informado no levantamento, de R$ 1.621. A pretensão salarial é o valor que o candidato indica como expectativa de remuneração ao participar de um processo seletivo.

O número pode revelar uma adaptação às dificuldades encontradas no mercado. Em vez de indicar o valor correspondente à sua qualificação e às responsabilidades do cargo, parte dos candidatos pode reduzir a expectativa para aumentar as chances de contratação.

Essa diferença também reforça a discussão sobre os chamados vieses de mercado. Marcadores como deficiência, gênero, raça e orientação sexual podem ser usados de forma indevida para desvalorizar a capacidade profissional de uma pessoa. O resultado pode aparecer tanto na oferta de cargos menos qualificados quanto na remuneração oferecida.

Na prática, a inclusão profissional exige que a deficiência não seja tratada como justificativa para limitar salários ou impedir promoções. A análise deve considerar formação, experiência, responsabilidades e desempenho, como ocorre com qualquer outro trabalhador.

Impacto para trabalhadores e empresas em Alfenas

Os dados nacionais também servem de referência para o mercado de trabalho de Alfenas e do Sul de Minas. Empresas da região que contratam pessoas com deficiência precisam observar não apenas o cumprimento da cota, quando ela for aplicável, mas a qualidade das oportunidades oferecidas.

Isso inclui divulgar vagas em diferentes áreas, garantir acessibilidade nos processos seletivos, adaptar ferramentas e ambientes de trabalho e criar critérios transparentes para promoções. A medida pode beneficiar tanto profissionais que já atuam nas empresas quanto candidatos que buscam o primeiro emprego formal.

Para os trabalhadores PcDs, o levantamento reforça a importância de conhecer seus direitos e avaliar as condições da vaga antes de aceitar uma proposta. A contratação deve respeitar a legislação trabalhista, e a deficiência não autoriza a redução indevida da remuneração ou a exclusão automática de funções de maior responsabilidade.

O cenário ainda é desigual, mas os dados apontam sinais de mudança. O aumento de empresas que oferecem todas as vagas a pessoas com deficiência e a abertura de oportunidades em áreas técnicas e de liderança indicam que a inclusão começa a avançar para além dos cargos operacionais. O desafio agora é transformar esse movimento em presença efetiva de PcDs nas posições de decisão.

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