O Governo Central registrou déficit primário de R$ 13,6 bilhões em agosto, segundo dados divulgados pelo Tesouro Nacional. O resultado representa uma melhora em relação ao mesmo mês de 2025, quando o saldo negativo foi de R$ 15,5 bilhões, e também ficou abaixo da previsão do mercado, que estimava déficit de aproximadamente R$ 16 bilhões.
O déficit primário ocorre quando as despesas do governo superam as receitas, sem considerar os gastos com juros da dívida pública. O cálculo reúne as contas do Tesouro Nacional, da Previdência Social e do Banco Central. Por isso, o resultado mensal é acompanhado como um dos principais indicadores da situação fiscal do país.
Resultado acumulado ainda é pior que o de 2025
Apesar da melhora observada em agosto, o desempenho no acumulado do ano continua negativo. Entre janeiro e agosto, o déficit primário do Governo Central chegou a R$ 94,9 bilhões, acima dos R$ 85,9 bilhões registrados no mesmo período de 2025.
A diferença mostra que um resultado mensal melhor não foi suficiente para compensar o desempenho mais fraco dos meses anteriores. Na prática, o governo gastou mais do que arrecadou no acumulado do ano, antes da contabilização dos juros da dívida.
Em agosto, o resultado conjunto do Tesouro Nacional e do Banco Central foi superavitário em R$ 5 bilhões. Esse saldo positivo, no entanto, foi mais do que compensado pelo déficit da Previdência Social, que atingiu R$ 18,6 bilhões no mês.
Arrecadação cresce acima da inflação
A receita líquida do Governo Central cresceu 3,5% em termos reais na comparação com agosto de 2025. O dado é considerado real porque já desconta o efeito da inflação, permitindo comparar o poder de arrecadação entre os dois períodos.
O avanço foi puxado principalmente pelas receitas administradas pela Receita Federal, que aumentaram 5,6% acima da inflação. Entre os destaques estão a Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social, conhecida como Cofins, o Imposto de Importação e o Imposto sobre Produtos Industrializados, o IPI.
Também houve contribuição das receitas relacionadas à exploração de recursos naturais. Nesse grupo, o resultado foi favorecido pela comercialização de petróleo e gás natural realizada pela Pré-Sal Petróleo S.A. (PPSA), empresa estatal responsável pela gestão dos contratos de partilha da produção do pré-sal.
Mercado de trabalho ajuda a Previdência
A arrecadação líquida da Previdência Social aumentou 6,3% em relação a agosto do ano anterior. Um dos fatores foi a melhora do mercado de trabalho, que levou a um crescimento real de 2,9% da massa salarial.
A massa salarial representa o total pago aos trabalhadores e tem impacto direto sobre as contribuições previdenciárias. Quando há mais pessoas empregadas, aumento da renda ou maior formalização, tende a crescer a arrecadação destinada ao sistema previdenciário.
O Tesouro também apontou efeitos positivos dos maiores recolhimentos feitos por empresas enquadradas no Simples Nacional, regime tributário simplificado voltado principalmente a micro e pequenas empresas. Outro fator citado foi a reoneração gradual da folha de pagamentos, processo de retomada progressiva da cobrança previdenciária sobre a folha de salários de setores que haviam recebido redução temporária dessa contribuição.
Fundo eleitoral foi principal pressão sobre as despesas
As despesas do Governo Central cresceram 1,9% acima da inflação em agosto. O principal fator de pressão foi o repasse de R$ 4,9 bilhões ao Fundo Especial de Financiamento de Campanha (FEFC), conhecido como fundo eleitoral.
O FEFC é formado por recursos públicos destinados ao financiamento de campanhas eleitorais. Como o repasse não havia ocorrido em agosto de 2025, a comparação anual registrou impacto relevante no resultado das despesas do governo.
Outros gastos também aumentaram no período:
- As despesas com benefícios previdenciários cresceram R$ 2,7 bilhões;
- Os gastos com abono salarial e seguro-desemprego subiram R$ 2,4 bilhões;
- Os créditos extraordinários aumentaram R$ 1,3 bilhão para medidas destinadas a reduzir impactos econômicos dos conflitos no Oriente Médio.
Créditos extraordinários são autorizações especiais de gasto usadas pelo governo em situações urgentes e imprevisíveis, como crises econômicas, calamidades ou conflitos com efeitos sobre a economia. Esses recursos ficam fora do planejamento original do orçamento e podem pressionar as contas públicas no curto prazo.
Despesas discricionárias recuam
Em sentido contrário ao aumento de despesas obrigatórias e do fundo eleitoral, os gastos discricionários recuaram R$ 5,6 bilhões. Essa categoria reúne despesas que podem ser administradas pelo governo, como investimentos, custeio de órgãos públicos e manutenção de serviços, diferentemente de gastos obrigatórios, que precisam ser pagos por determinação legal.
A área da saúde respondeu por R$ 2,9 bilhões da redução das despesas discricionárias. O número não significa necessariamente que o orçamento total da saúde tenha diminuído na mesma proporção, porque a análise considera a parcela discricionária dos gastos e não todas as despesas do setor. Ainda assim, indica menor execução ou menor desembolso nessa categoria durante o mês.
O resultado de agosto combina, portanto, uma melhora na arrecadação e um crescimento de receitas ligadas ao emprego, ao comércio exterior e ao petróleo com despesas maiores em áreas específicas. O desempenho mensal ficou melhor que o esperado, mas o acumulado do ano mostra que o desafio fiscal permanece: conter a expansão dos gastos e, ao mesmo tempo, manter a capacidade de financiar a Previdência, a saúde e outras políticas públicas.