A consultoria de gestão empresarial Falconi investiu R$ 100 milhões em inteligência artificial (IA) e tecnologia entre 2022 e 2026. O aporte foi destinado à criação de infraestrutura em nuvem, licenciamento de modelos de machine learning, desenvolvimento de soluções de IA generativa, contratação de especialistas e capacitação dos próprios funcionários.
A estratégia marca uma mudança no posicionamento da empresa, que deixou de tratar a inteligência artificial apenas como uma frente de consultoria e passou a estruturar uma área tecnológica voltada à transformação de processos e modelos de negócio. A plataforma própria da Falconi foi construída sobre a infraestrutura do Google Cloud e começou a ser desenvolvida em 2022, com a contratação de profissionais das áreas de dados e IA.
Investimento em IA acompanha expansão das vendas de tecnologia
Os resultados comerciais indicam crescimento da demanda por esse tipo de serviço. As vendas de tecnologia da Falconi aumentaram 27,5% entre 2024 e 2025. No primeiro trimestre de 2026, o avanço foi de 90% em relação ao mesmo período do ano anterior.
De acordo com a empresa, a maior parte dos projetos em andamento está ligada à automação de processos. A divisão dos trabalhos é a seguinte:
- 80% dos projetos envolvem hiperautomação de processos com agentes de IA;
- 20% correspondem a soluções preditivas e prescritivas.
Na prática, a hiperautomação combina ferramentas digitais para executar tarefas que antes dependiam de intervenção humana em várias etapas. Os chamados agentes de IA podem analisar informações, tomar decisões dentro de parâmetros definidos e acionar sistemas. Já as soluções preditivas tentam antecipar cenários com base em dados históricos, enquanto as prescritivas sugerem medidas para responder a esses cenários.
Esse tipo de aplicação pode ser usado, por exemplo, na análise de indicadores, no planejamento operacional, na identificação de gargalos e na padronização de rotinas. A tecnologia, porém, não elimina a necessidade de gestão: os resultados dependem da qualidade dos dados, da definição de metas e do acompanhamento das decisões tomadas pelos sistemas.
Falconi amplia atuação de consultoria de IA para tecnologia
Quando a iniciativa começou, em 2022, a área era chamada de IA Consulting. Em 2024, passou a se chamar Tech Consulting, sinalizando uma atuação mais ampla, que inclui inteligência artificial, análise de dados, automação e integração de plataformas.
Para desenvolver essa estrutura, a Falconi firmou parcerias com empresas como Celonis, Databricks, AWS e Microsoft Azure. Também estabeleceu uma cooperação específica com o Centro de Excelência em Inteligência Artificial da Universidade Federal de Goiás (CEIA/UFG). A parceria foi viabilizada por meio da Empresa Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial (Embrapii), organização que apoia projetos de pesquisa aplicada e desenvolvimento tecnológico em conjunto com empresas e instituições de ciência.
Segundo a companhia, alguns modelos de machine learning foram desenvolvidos nessa cooperação. O termo se refere a sistemas capazes de identificar padrões em grandes volumes de dados e melhorar seu desempenho a partir das informações analisadas, sem depender apenas de regras programadas manualmente.
CEO diz que tecnologia precisa estar ligada à estratégia
Para o CEO da Falconi, Alexandre Ribas, o investimento em ferramentas não é suficiente para garantir retorno. Segundo ele, a tecnologia precisa estar integrada à estratégia da organização e acompanhada por mudanças nos processos, no modelo operacional e na cultura interna.
“O retorno do uso da tecnologia só aparece quando ela se acopla à estratégia, promove uma alteração, ou mudança completa, do modelo operacional e da cultura que o sustenta e vem acompanhada de uma governança de resultados”, afirmou.
Ribas também destacou o posicionamento da empresa no mercado: “A Falconi sabe como fazer a tecnologia entregar resultado, de ponta a ponta. Não é fornecedora de ferramentas, é parceira estratégica de transformação”.
A chamada governança de resultados envolve estabelecer responsabilidades, acompanhar indicadores e verificar se a solução adotada está produzindo o efeito esperado. Esse controle é relevante em projetos de IA porque um sistema pode funcionar tecnicamente e, ainda assim, não gerar economia, aumento de produtividade ou melhoria na tomada de decisão.
Plataforma Vicente reúne conhecimento acumulado pela consultoria
Entre as soluções desenvolvidas internamente está o Vicente, uma plataforma criada para organizar o conhecimento acumulado pela Falconi ao longo de mais de 40 anos de operação. O sistema reúne informações sobre organizações, projetos, profissionais e indicadores.
Esse conteúdo foi disponibilizado em linguagem natural para outras ferramentas de inteligência artificial utilizadas pelas equipes da consultoria. A integração ocorre por meio do Model Context Protocol (MCP), um protocolo de código aberto desenvolvido pela Anthropic.
Em termos práticos, o MCP funciona como uma forma padronizada de conectar modelos de IA a fontes de informação e ferramentas externas. Com isso, aplicações diferentes podem consultar dados estruturados e usar o conhecimento disponível em uma organização com mais contexto. O uso de uma base interna como a do Vicente também pode reduzir a dispersão de informações e facilitar o acesso a experiências acumuladas em projetos anteriores.
Ao mesmo tempo, soluções desse tipo exigem cuidados com segurança, controle de acesso e atualização dos dados. Informações empresariais, indicadores e registros de projetos não devem ser disponibilizados de maneira indiscriminada. A adoção de protocolos e plataformas precisa estar acompanhada de regras sobre privacidade, confidencialidade e uso responsável da inteligência artificial.
Reconhecimento no mercado de análise avançada
A estratégia tecnológica da Falconi também recebeu reconhecimento externo. A consultoria foi apontada como líder nas áreas de Advanced Analytics, inteligência artificial e IA generativa no Brasil pelo quadrante ISG Provider Lens em 2024 e 2025. A empresa também recebeu o reconhecimento de Rising Star em uma das categorias.
Advanced Analytics, ou análise avançada, reúne técnicas que vão além da apresentação de dados históricos. A área inclui modelos estatísticos, automação analítica e inteligência artificial para identificar tendências, prever comportamentos e apoiar decisões. A IA generativa, por sua vez, é usada para produzir textos, códigos, análises e outros conteúdos a partir de comandos e dados fornecidos pelo usuário.
O movimento da Falconi ocorre em um momento de expansão do uso corporativo dessas tecnologias. Empresas de diferentes setores buscam automatizar tarefas, reduzir tempo de execução e transformar grandes volumes de dados em informação útil. O desafio é fazer com que os investimentos estejam ligados a problemas concretos e tragam ganhos mensuráveis, em vez de se limitarem à adoção de ferramentas da moda.
Com o aporte anunciado, a Falconi pretende combinar consultoria de gestão, desenvolvimento tecnológico e capacitação interna. A evolução da área, iniciada com profissionais de dados em 2022 e ampliada para uma estrutura de Tech Consulting, mostra que a empresa passou a tratar a inteligência artificial como parte permanente de sua operação e de seus serviços para clientes.