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Economia

Entregas rápidas mudam a logística do varejo e pressionam empresas antes da Black Friday

Redação Saiu Agora
21 de setembro de 2026 às 20:54
Entregas rápidas mudam a logística do varejo e pressionam empresas antes da Black Friday
Foto: Divulgação
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Nove em cada dez consumidores brasileiros consideram a entrega no mesmo dia ou no dia seguinte um fator decisivo para concluir uma compra. O dado mostra como a velocidade deixou de ser apenas um diferencial das lojas virtuais e passou a influenciar diretamente a decisão de consumo, obrigando empresas a reorganizar estoques, transportes, equipes e sistemas de informação.

A mudança ocorre em meio à expansão das compras pela internet e à disputa entre grandes plataformas, como Amazon, Mercado Livre, Magalu e Shopee. Na busca por atender consumidores que querem receber os produtos cada vez mais rapidamente, as empresas vêm aproximando os estoques dos centros urbanos, ampliando pontos de distribuição e usando ferramentas de análise de dados e inteligência artificial para prever a demanda.

Entregas turbo chegam à Grande São Paulo

Uma das iniciativas mais recentes é a modalidade turbo, anunciada pela Shopee para clientes da Grande São Paulo. A proposta é entregar determinados produtos em até quatro horas. O modelo acompanha uma tendência já adotada ou testada por outras grandes varejistas, que passaram a tratar o prazo de entrega como parte central da experiência de compra.

O avanço das entregas ultrarrápidas, porém, não depende apenas de colocar mais veículos nas ruas. Segundo o administrador Celson Bertanha, coordenador do Grupo de Excelência em Gestão da Cadeia de Suprimentos e Logística (GELOG), ligado ao Conselho Regional de Administração de São Paulo (CRA-SP), a corrida pela velocidade é resultado da combinação entre a mudança no comportamento do consumidor e a evolução da infraestrutura logística e tecnológica.

“Hoje, o cliente não avalia apenas preço e variedade. Quando grandes empresas como Shopee, Amazon e Mercado Livre elevam o nível de serviço, elas também redefinem a expectativa do mercado. Isso está levando o varejo a aproximar estoques da demanda, ampliar hubs urbanos, integrar sistemas e utilizar cada vez mais a análise de dados e inteligência artificial para antecipar tendências e responder ao consumo”, explica Bertanha.

O que muda na operação das empresas

Na prática, a entrega rápida exige que o produto esteja disponível em uma unidade próxima do consumidor. Esse tipo de estrutura reduz o tempo entre a confirmação do pedido, a separação da mercadoria e o deslocamento até o endereço final. Os chamados hubs urbanos funcionam como pontos estratégicos de distribuição, capazes de atender regiões específicas com mais agilidade.

Também é necessário integrar diferentes etapas da cadeia de suprimentos. Os sistemas precisam identificar o estoque em tempo real, encaminhar o pedido para a unidade mais adequada, organizar a separação e acionar o transporte dentro do prazo prometido. Quando há falhas nessas etapas, a velocidade anunciada pode resultar em atrasos, cancelamentos e aumento de custos.

Por isso, o desafio não está somente no transporte. A operação envolve planejamento de compras, armazenagem, tecnologia, contratação e dimensionamento de equipes, gestão de rotas e preparação para imprevistos. Como resume o coordenador do GELOG: “Entrega ultrarrápida não é acelerar o transporte. É construir uma cadeia sincronizada, previsível e flexível.”

Black Friday aumenta a pressão sobre a logística

A capacidade das empresas será colocada à prova durante a Black Friday, marcada para 27 de novembro. O período é um dos mais importantes do calendário do varejo e concentra grande volume de pedidos em um intervalo curto. A alta procura pode pressionar simultaneamente os estoques, os centros de distribuição, as equipes responsáveis pela separação e os serviços de transporte.

Para Bertanha, é possível conciliar modalidades de entrega rápida com o aumento das compras, mas isso depende de preparação antecipada. A empresa que oferece um prazo curto precisa avaliar se terá produtos disponíveis, pessoal suficiente e capacidade de transporte para manter a promessa feita ao consumidor.

Entre as medidas necessárias estão:

  • posicionar os estoques próximos das regiões com maior demanda;
  • dimensionar equipes para separação, conferência e expedição dos pedidos;
  • planejar a quantidade e os tipos de transporte necessários;
  • integrar sistemas para acompanhar pedidos e estoques;
  • preparar planos de contingência para falhas operacionais e imprevistos externos.

“A preparação precisa começar antes do evento, com posicionamento de estoque, dimensionamento de equipes e transportes, bem como os planos de contingência”, afirma o especialista.

Velocidade precisa vir acompanhada de previsibilidade

Para o consumidor, a promessa de receber uma compra no mesmo dia ou no dia seguinte representa conveniência e redução da espera. Para as empresas, no entanto, o prazo curto aumenta a necessidade de controle sobre toda a operação. Uma entrega rápida que não se repete de forma consistente pode comprometer a confiança do cliente e elevar os custos do varejista.

O crescimento desse modelo também tende a reforçar a importância da chamada última milha, etapa que leva o produto do centro de distribuição até o endereço final. É uma fase especialmente sensível porque envolve trânsito, disponibilidade do destinatário, precisão do endereço e organização das rotas. Em grandes áreas urbanas, pequenas falhas podem afetar muitos pedidos ao mesmo tempo.

A análise de dados e a inteligência artificial são usadas nesse contexto para identificar padrões de compra, antecipar períodos de maior procura e apoiar decisões sobre estoque e distribuição. Essas ferramentas não substituem o planejamento operacional, mas ajudam as empresas a tomar decisões com mais rapidez e precisão.

A tendência indica que o prazo de entrega continuará sendo um dos principais critérios de competição no comércio eletrônico. Ao mesmo tempo, a expansão das entregas ultrarrápidas deverá exigir das empresas equilíbrio entre velocidade, capacidade operacional, custos e qualidade do serviço. Para o consumidor, a disputa entre as plataformas pode significar mais opções de prazo; para o varejo, representa a necessidade de manter uma cadeia logística preparada para operar com eficiência também nos momentos de maior movimento.

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