Uma operação de comércio eletrônico sediada em Curitiba (PR), responsável pelo processamento de cerca de 30 mil pedidos por mês nos principais marketplaces do país, deu origem a um escritório de contabilidade voltado exclusivamente para empresas que vendem pela internet. Fundada em 2024 pelo empresário Eduardo Sampaio, a ContabilizaEcom atende atualmente 300 empresas em 14 estados e administra informações relacionadas a um faturamento de R$ 33 milhões de clientes.
A empresa surgiu a partir de uma necessidade enfrentada dentro da própria operação de comércio eletrônico de Sampaio. Antes de criar o escritório, ele comandava a Cozena, empresa de artigos de organização e decoração para casa que importa parte dos produtos diretamente da China e comercializa o catálogo em plataformas como Mercado Livre, Shopee, Amazon e Magalu.
O crescimento das vendas revelou uma dificuldade comum entre empreendedores do setor: encontrar profissionais de contabilidade familiarizados com a forma como o dinheiro circula nos marketplaces. Embora a venda seja registrada por meio de nota fiscal, o valor que chega à conta da empresa normalmente já passou por descontos de comissão, frete, tarifas e outros serviços oferecidos pelas plataformas.
Por que a contabilidade de marketplace é diferente
Nos modelos tradicionais de varejo, a empresa costuma acompanhar diretamente o pagamento feito pelo consumidor e a entrada do dinheiro no caixa. No marketplace, a plataforma funciona como intermediária: reúne o pedido, processa o pagamento, pode oferecer serviços de logística e depois repassa ao vendedor o valor correspondente, já descontadas as tarifas previstas no contrato.
Essa dinâmica exige que o empreendedor concilie informações de diferentes origens. Entre os dados que precisam ser conferidos estão:
- notas fiscais emitidas nas vendas;
- repasses financeiros feitos por cada marketplace;
- comissões cobradas pelas plataformas;
- tarifas de fulfillment, serviço que pode envolver armazenamento, separação e entrega dos produtos;
- devoluções, cancelamentos e estornos;
- custos e registros relacionados à importação direta.
O imposto, conforme explica Sampaio, é calculado com base na nota fiscal, enquanto o caixa recebe o repasse líquido. Sem uma conferência adequada, o empresário pode enxergar um valor no faturamento e outro completamente diferente no saldo bancário. A diferença precisa ser explicada pela contabilidade para evitar erros fiscais e também para mostrar se a operação realmente é lucrativa.
“A gente tinha uma operação crescendo, com repasse de quatro plataformas diferentes, tarifa de fulfillment, devolução, importação, e a contabilidade que atendia a gente não sabia lançar um repasse do Mercado Livre. Era o mesmo escritório que atendia padaria e clínica. A gente acabou montando internamente o que precisava e, em algum momento, percebeu que o problema não era só nosso”, afirma Eduardo Sampaio.
Escritório atende somente vendedores de marketplace
A decisão da ContabilizaEcom de trabalhar apenas com vendedores de marketplace é apresentada como uma escolha de especialização. O escritório não aceita clientes de outros segmentos e mantém uma equipe de 20 profissionais, entre contadores, analistas fiscais e especialistas em operação de comércio eletrônico.
Na prática, a proposta é concentrar conhecimento em uma área que reúne características próprias. O vendedor pode operar simultaneamente em várias plataformas, cada uma com regras, relatórios, prazos de repasse e formas de cobrança diferentes. Além disso, o negócio pode envolver estoque em centros de distribuição, vendas interestaduais, produtos importados e um volume elevado de devoluções.
Para pequenas e médias empresas, esse acompanhamento tem impacto direto no planejamento. Uma loja pode vender muito e ainda assim ter margem reduzida quando são considerados comissão, frete, publicidade, impostos, custo do produto, armazenamento e devoluções. Por isso, a análise do faturamento bruto, sozinha, não mostra o resultado real da operação.
Plataforma cruza dados contábeis e financeiros
Além dos serviços contábil, fiscal e trabalhista, a empresa desenvolveu uma plataforma própria para consolidar os dados dos marketplaces com as informações da contabilidade de cada cliente. A ferramenta também apresenta indicadores de margem por canal e por produto.
O objetivo é permitir que o empreendedor compare o resultado líquido de cada plataforma. Uma venda em determinado canal pode apresentar volume elevado, mas gerar margem menor depois dos descontos. Em outro marketplace, mesmo com menos pedidos, o retorno por produto pode ser mais vantajoso.
Esse tipo de acompanhamento ajuda a responder perguntas importantes para a gestão do negócio:
- qual canal apresenta a melhor margem;
- quais produtos vendem mais, mas geram menos resultado;
- quanto as comissões e tarifas reduzem a receita;
- qual é o impacto das devoluções no resultado final;
- quanto dinheiro efetivamente chega ao caixa depois dos descontos.
“Contabilidade de e-commerce é outra disciplina. O imposto é calculado sobre a nota, mas o dinheiro que entra no caixa é o repasse, depois de comissão, frete e tarifa. Quem não vive isso todo dia erra, e o erro sai do bolso do vendedor”, diz Sampaio.
Impacto para quem vende pela internet
O avanço dos marketplaces ampliou o acesso de pequenos negócios a consumidores de diferentes regiões do Brasil. Ao mesmo tempo, criou uma operação mais dependente de sistemas, relatórios e regras de plataformas privadas. O lojista deixa de cuidar apenas da venda e passa a administrar também conciliação financeira, logística, tributação e controle de estoque.
Para o consumidor, a mudança costuma ser percebida na variedade de produtos e na facilidade de compra. Para o vendedor, porém, cada pedido envolve uma cadeia de registros que precisa estar alinhada. A nota fiscal, o relatório da plataforma, o repasse bancário e o controle interno devem representar a mesma operação.
A especialização criada em Curitiba acompanha essa transformação do comércio. Ao transformar uma dificuldade enfrentada pela própria Cozena em um serviço para outras empresas, a ContabilizaEcom passou a atuar em um nicho específico da economia digital. Segundo os dados apresentados pela companhia, a estrutura já alcança 300 empresas distribuídas por 14 estados e reúne 20 profissionais dedicados às rotinas de contabilidade e operação de marketplace.
O principal alerta para os empreendedores é que faturamento e lucro não são sinônimos. O volume de pedidos pode indicar crescimento, mas a sustentabilidade do negócio depende de saber quanto sobra após todos os descontos e custos. Nesse cenário, a contabilidade deixa de ser apenas uma obrigação fiscal e passa a fazer parte das decisões comerciais da empresa.