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Economia

Contratos bem estruturados ajudam empresas a reduzir prejuízos e riscos

Redação Saiu Agora
28 de setembro de 2026 às 18:29
Contratos bem estruturados ajudam empresas a reduzir prejuízos e riscos
Foto: Divulgação
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Com 9,2 milhões de empresas inadimplentes e dívidas que somavam R$ 238,6 bilhões em julho de 2026, a elaboração de contratos deixou de ser uma etapa meramente burocrática e passou a ocupar posição central na gestão de riscos empresariais. O documento pode definir não apenas as obrigações de cada parte, mas também quanto uma empresa conseguirá recuperar em caso de inadimplência, descumprimento ou conflito.

Os dados são da Serasa Experian e consideram empresas identificadas por seus CNPJs. O cenário de crédito ajuda a explicar por que decisões tomadas antes da assinatura de um negócio podem ter impacto direto sobre o caixa, a continuidade das operações e a capacidade de a empresa enfrentar uma disputa.

Problemas costumam começar antes do processo judicial

O aumento da inadimplência ocorre em um ambiente de forte demanda do Judiciário. Em 2025, foram registrados 40,9 milhões de novos casos no país, o maior volume da série histórica iniciada em 2009, segundo o relatório Justiça em Números 2026, do Conselho Nacional de Justiça (CNJ).

O CNJ é o órgão responsável pelo controle administrativo e pelo planejamento do Poder Judiciário brasileiro. O número de novos processos não significa que todos estejam ligados a contratos empresariais, mas mostra o tamanho da pressão sobre a Justiça e reforça a importância de prevenir conflitos e organizar provas antes que uma disputa chegue aos tribunais.

Para o advogado Daniel Viana, fundador do Viana Melo Advogados e profissional com mais de 20 anos de atuação em ambientes corporativos complexos, os maiores prejuízos empresariais raramente começam no processo judicial. Em geral, eles têm origem na forma como a relação comercial foi estruturada.

“O contrato, seja nas estratégias internas, na negociação, na assinatura ou na execução, está no cerne do risco empresarial. Em muitos casos, ele define quanto a empresa pode perder, quanto consegue recuperar e quem será responsável pelos prejuízos de uma operação”, afirma.

Cláusulas genéricas aumentam a insegurança

Na prática, empresas costumam buscar orientação jurídica somente depois que o problema já ocorreu. Entre as situações mais comuns estão conflitos com fornecedores, desentendimentos entre sócios e créditos que não foram pagos. Nesses casos, é frequente encontrar contratos com regras genéricas, responsabilidades mal distribuídas e garantias insuficientes.

Outro ponto de atenção são as cláusulas que tratam de cobrança, rescisão e solução de conflitos. Quando esses mecanismos não são objetivos, a empresa pode ter dificuldade para demonstrar o que foi combinado, comprovar o descumprimento ou exigir uma reparação proporcional ao prejuízo.

O que precisa ser definido no contrato

Um contrato empresarial não deve se limitar a registrar o preço e o prazo de uma negociação. O texto precisa refletir os riscos concretos da operação e prever como as partes deverão agir em diferentes cenários. Entre os pontos que merecem atenção estão:

  • obrigações específicas de cada parte, com prazos e responsáveis claramente identificados;
  • critérios objetivos para verificar a qualidade e o aceite de produtos ou serviços;
  • consequências para atrasos, falhas de execução ou descumprimento;
  • garantias compatíveis com o valor e o risco do negócio;
  • regras para cobrança, rescisão e encerramento da relação comercial;
  • procedimentos para negociação, mediação, arbitragem ou eventual ação judicial.

Riscos variam conforme o tipo de relação empresarial

Os problemas identificados em uma disputa com fornecedor não são necessariamente os mesmos que aparecem em um conflito societário ou em um caso de inadimplência. Por isso, contratos padronizados, copiados de operações anteriores ou elaborados sem considerar o negócio específico podem deixar de proteger justamente os pontos mais sensíveis.

Fornecedores

Nos contratos com fornecedores, uma das principais falhas é a ausência de padrões claros de qualidade, prazos de entrega e critérios de aceite. Sem essas definições, torna-se mais difícil saber quando o produto ou serviço foi entregue de forma inadequada e quais consequências devem ser aplicadas.

Também é importante estabelecer quem arcará com custos decorrentes de atraso, retrabalho, defeitos ou interrupção do fornecimento. A falta dessas previsões pode transferir para a empresa contratante um prejuízo que, em tese, deveria ser suportado pelo fornecedor.

Relações entre sócios

Nos litígios societários, as lacunas geralmente envolvem a saída de sócios, os impasses na gestão e a transferência de participações. A ausência de regras para esses momentos pode paralisar decisões, dificultar a continuidade da empresa e ampliar o conflito entre os integrantes da sociedade.

Prever antecipadamente como será feita a retirada de um sócio, como sua participação será avaliada e quem poderá adquirir as quotas ou ações ajuda a reduzir a incerteza. O mesmo vale para situações em que os sócios não conseguem chegar a um acordo sobre decisões relevantes.

Concessão de crédito

Nos casos de inadimplência, o problema muitas vezes começa na concessão de crédito sem garantias proporcionais ao risco. A existência de um contrato, por si só, não assegura o recebimento. É necessário que o documento registre a obrigação de forma clara e contenha mecanismos que aumentem as chances de recuperação do valor devido.

A análise deve considerar o perfil da operação, o histórico da contraparte, o valor envolvido e a capacidade de pagamento. Também precisam estar definidos os vencimentos, os encargos aplicáveis, as hipóteses de vencimento antecipado e os procedimentos para cobrança. Quanto mais imprecisa for a documentação, maior tende a ser a dificuldade para reagir ao não pagamento.

Prevenção reduz custos e preserva relações comerciais

A revisão contratual não deve ocorrer apenas quando a empresa recebe uma notificação ou decide processar um parceiro. O acompanhamento durante a execução é igualmente importante. Mudanças de prazo, reajustes, alterações no escopo e acordos feitos por mensagens ou reuniões precisam ser registrados para evitar divergências futuras.

Esse cuidado também contribui para preservar relações comerciais. Um contrato claro permite que as partes saibam o que pode ser exigido e quais alternativas existem antes de uma ruptura. A prevenção não elimina todos os conflitos, mas reduz o espaço para interpretações contraditórias e melhora a posição da empresa caso seja necessário negociar ou buscar a Justiça.

Em um cenário de inadimplência elevada e número recorde de novos processos, a gestão jurídica passa a fazer parte da gestão financeira e operacional. Negociar bem, documentar decisões, escolher garantias adequadas e revisar as cláusulas antes da assinatura são medidas que podem limitar perdas e dar mais segurança para empresas de diferentes portes.

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