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Economia

Chargeback ainda transfere para lojistas o custo de fraudes no comércio online

Redação Saiu Agora
18 de setembro de 2026 às 19:55
Chargeback ainda transfere para lojistas o custo de fraudes no comércio online
Foto: Divulgação
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O chargeback, mecanismo criado para proteger consumidores contra cobranças indevidas e fraudes em cartões, continua gerando prejuízos para empresas que vendem pela internet. Em muitos casos, mesmo quando a compra é legítima, cabe ao lojista provar que a transação foi feita pelo verdadeiro titular do cartão — uma tarefa mais complexa no ambiente digital do que era nas antigas compras presenciais.

O tema também afeta empresas de Alfenas e de outras cidades do Sul de Minas que passaram a vender por sites próprios, redes sociais, marketplaces e aplicativos. A contestação de uma compra pode significar a perda do produto, do valor recebido e ainda a cobrança de tarifas ou custos operacionais relacionados à disputa.

O que é chargeback e por que ele preocupa o comércio eletrônico

O chargeback ocorre quando o titular do cartão contesta uma transação junto ao banco ou à administradora. A contestação pode estar relacionada a fraude, cobrança não reconhecida, duplicidade, erro na operação ou problema na entrega do produto ou serviço.

Quando a disputa é aberta, o lojista precisa apresentar documentos e registros que comprovem a regularidade da venda. Se a defesa não for considerada suficiente, o valor pode ser retirado da empresa e devolvido ao consumidor. O sistema tem uma função importante de proteção, mas as regras e procedimentos nem sempre acompanham a velocidade da transformação digital.

Segundo dados da Visa, o ticket médio das fraudes registradas no comércio eletrônico brasileiro em 2024 foi 60% maior que o das vendas legítimas. O dado indica que criminosos costumam mirar transações de maior valor, ampliando o impacto financeiro sobre os lojistas.

Como o modelo antigo influenciou as regras atuais

Durante muitos anos, as compras presenciais eram feitas em máquinas manuais de cartão, que imprimiam os dados da transação em papel carbono. A autorização dependia da assinatura do cliente, que poderia ser comparada ao documento de identidade. O comprovante físico funcionava como uma evidência direta da compra.

O comércio, porém, mudou. No Brasil e em boa parte da Europa, os pagamentos passaram a depender de recursos como senha, chip, autenticação digital e outras camadas de segurança. No ambiente online, não há contato físico entre comprador e vendedor, nem uma ficha assinada que possa ser apresentada como prova tradicional da autorização.

Os Estados Unidos ainda mantêm, em larga escala, o modelo de pagamento por assinatura. Essa permanência está ligada à estrutura do mercado americano, no qual os bancos emissores preservam incentivos ao uso do cartão de crédito, modalidade que gera receitas maiores do que o débito. A diferença ajuda a explicar por que regras desenvolvidas em uma realidade mais física continuam influenciando disputas digitais.

Por que provar uma venda legítima é difícil na internet

No comércio eletrônico, a identidade do comprador é formada por um conjunto de sinais: dados cadastrais, endereço, dispositivo utilizado, histórico de acesso, localização aproximada, confirmação de entrega e registros de comunicação. Nenhum desses elementos, isoladamente, equivale à assinatura presente em uma compra física.

O problema é que a responsabilidade prática de demonstrar a legitimidade da transação continua recaindo sobre o lojista. Para pequenas empresas, que muitas vezes não têm uma equipe especializada em prevenção a fraudes, reunir, organizar e enviar todas as evidências dentro do prazo pode ser difícil.

“O desafio é que as regras do chargeback continuam refletindo uma realidade de outro momento do varejo físico. No ambiente online, simplesmente não existe uma ficha assinada que possa ser apresentada como prova da legitimidade da compra. Ainda assim, a responsabilidade de comprovar que a transação foi realizada pelo verdadeiro titular, na prática, continua recaindo sobre o lojista”, explica Alex Tabor, CEO da Tuna Pagamentos.

Quais evidências podem ajudar na contestação

A reversão de um chargeback é possível em determinadas situações, desde que o comerciante consiga apresentar indícios consistentes de que a transação foi regular. Entre os elementos que podem contribuir estão:

  • comprovante de entrega no endereço informado na compra;
  • evidência de que o endereço pertence ao titular do cartão;
  • registros de comunicação entre comprador e empresa;
  • dados técnicos e históricos relacionados ao acesso e à operação;
  • documentos ou registros públicos que indiquem a utilização do produto ou serviço pelo comprador.

Um dos exemplos citados é a comprovação de que o endereço de entrega pertence ao próprio titular do cartão. Também podem ser considerados registros públicos que demonstrem que o comprador utiliza o produto ou serviço adquirido. Ainda assim, a análise depende das regras aplicadas pelo banco emissor e pela bandeira, e não existe garantia de que toda contestação será revertida.

Impacto para empresas de Alfenas e região

Para um grande varejista, uma perda individual pode ser absorvida dentro de um volume elevado de vendas. Para uma pequena loja de Alfenas, entretanto, uma transação de valor alto pode comprometer o resultado de vários dias ou semanas. O risco é maior quando o produto já foi enviado e não pode ser recuperado.

O chargeback também exige que o comerciante invista em processos de prevenção. Isso inclui conferir dados antes do envio, acompanhar pedidos de maior valor, guardar comprovantes, manter canais de atendimento e adotar mecanismos de autenticação. A adoção dessas medidas pode reduzir fraudes, mas aumenta o custo e a complexidade da operação.

Por outro lado, controles excessivamente rígidos podem bloquear compras legítimas. Uma loja que recusa muitos pedidos por suspeita de fraude perde vendas e pode afastar consumidores. O desafio é encontrar equilíbrio entre segurança, aprovação de transações e boa experiência de compra.

O que o consumidor precisa saber

O consumidor continua tendo direito de contestar cobranças que não reconhece ou que apresentem problemas. A proteção contra fraude é uma parte essencial do sistema de pagamentos. O debate está na necessidade de atualizar os procedimentos para que a análise considere as características das compras digitais e distribua os riscos de forma mais equilibrada.

Para o lojista, a principal recomendação é manter uma trilha organizada da venda, desde o pedido até a entrega. Guardar comprovantes e registros não elimina o risco de chargeback, mas aumenta a capacidade de defesa quando uma transação é contestada.

O avanço dos pagamentos digitais tornou as compras mais rápidas e convenientes, mas também criou novas formas de fraude e novas disputas sobre quem deve arcar com o prejuízo. Enquanto as regras não acompanham completamente essa realidade, empresas e consumidores continuam submetidos a um modelo que protege o comprador, mas pode penalizar o comerciante mesmo quando não há falha comprovada na venda.

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