A idade, por si só, não impede uma pessoa de doar um órgão em vida. A avaliação médica, as condições de saúde e a compatibilidade entre doador e receptor são os principais fatores analisados pelas equipes responsáveis pelo transplante. O tema ganha destaque durante o Setembro Verde, campanha de conscientização sobre a doação de órgãos.
Um caso que ajuda a explicar essa possibilidade é o de Arivaldo Sampaio. Em 2023, aos 69 anos, ele decidiu se submeter aos exames para tentar salvar o filho, que havia perdido a função do único rim e enfrentava sessões de hemodiálise quase diárias. Diante da necessidade de um transplante, toda a família se colocou à disposição como possível doadora.
Os exames mostraram compatibilidade total entre pai e filho. Arivaldo foi considerado apto e doou um dos rins ao filho. “Tive a felicidade de descobrir que eu era compatível. Esse momento, para mim, foi um momento de graça. Foi uma graça divina mesmo”, relatou.
Quais órgãos podem ser doados em vida
De acordo com o Ministério da Saúde, uma pessoa viva pode doar um dos rins, parte do fígado, parte da medula ou parte dos pulmões. A compatibilidade sanguínea é necessária em todos os casos, mas não é o único critério considerado. A equipe médica também analisa o histórico clínico, a existência de doenças anteriores, os resultados dos exames e os possíveis riscos para a saúde do doador.
- O doador precisa passar por avaliação médica completa;
- A compatibilidade entre doador e receptor deve ser investigada;
- A decisão precisa ser voluntária e consciente;
- O procedimento deve ser realizado por equipe especializada e em serviço habilitado;
- A saúde do doador continua sendo acompanhada depois da cirurgia.
Na prática, isso significa que uma pessoa idosa não é automaticamente excluída por causa da idade. O que determina a possibilidade de doação é a avaliação individual. Um paciente mais velho, mas com boas condições clínicas, pode ser considerado apto, enquanto uma pessoa mais jovem pode ser impedida de doar se apresentar riscos incompatíveis com a cirurgia.
Recuperação e acompanhamento após a doação
Arivaldo contou que tinha receio de que o rim não estivesse saudável o suficiente para ser doado. “Me perguntava como estará esse rim. Funcionalmente ele estará bem? Pode mesmo ser doado?”, disse. Depois de realizar todos os exames, recebeu autorização médica para o procedimento.
Segundo ele, a recuperação foi tranquila, principalmente por causa do acompanhamento de uma equipe qualificada e atenciosa. O filho deixou o hospital com o rim transplantado funcionando. O resultado também mostrou a importância da avaliação antes da cirurgia: somente depois de verificar as condições do órgão e a segurança do procedimento é que a doação foi autorizada.
Três anos depois do transplante, Arivaldo mantém uma rotina de atividade física pelo menos cinco vezes por semana. Ele pratica corrida, musculação e alongamento. Também passa uma vez por ano por consultas e exames no Hospital Universitário de Brasília (HUB), instituição que coordenou o processo do transplante.
Formado em educação física, o professor aposentado relaciona a boa recuperação aos cuidados adotados ao longo da vida. “Tudo isso é uma prova de que, quando você procura se cuidar, você consegue chegar numa idade mais avançada com mais qualidade de vida”, afirmou. Ele também lembrou que lecionou por 30 anos na rede pública e costumava orientar os alunos sobre a importância dos hábitos mantidos desde a juventude.
Como funciona a doação de órgãos entre pessoas vivas
A legislação brasileira estabelece regras para proteger tanto o doador quanto o receptor. A doação em vida pode ocorrer entre parentes de até quarto grau e entre cônjuges sem necessidade de autorização judicial. Quando não existe esse grau de parentesco, a doação ainda pode ser possível, mas depende de autorização da Justiça.
Essa exigência busca verificar se a decisão foi tomada de forma livre, sem pressão, pagamento ou qualquer tipo de vantagem indevida. O transplante não pode ser tratado como uma negociação comercial. A análise judicial, nesses casos, funciona como uma camada adicional de proteção para o doador.
Também é importante diferenciar a doação em vida da doação após a morte. No primeiro caso, o doador participa de todo o processo, realiza exames e precisa ser considerado clinicamente apto. Na doação após a morte, a retirada dos órgãos depende da confirmação da morte encefálica ou de outras condições previstas em protocolo, além da autorização familiar conforme as regras do sistema brasileiro.
Fila de transplantes ainda reúne milhares de brasileiros
Apesar dos avanços, a demanda por transplantes continua alta no país. Em 2025, o Brasil registrou 4.335 doadores efetivos, o equivalente a 20,3 doadores por milhão de pessoas. Foi a maior taxa já registrada. Mesmo assim, cerca de 49,4 mil brasileiros ainda aguardavam na fila de transplantes, segundo dados do Sistema Nacional de Transplantes.
Os números mostram que o aumento das doações é importante, mas não elimina a espera. Cada órgão disponível depende de critérios médicos, compatibilidade e logística para que o transplante seja realizado no tempo adequado. No caso dos doadores vivos, a possibilidade de planejamento pode ajudar em situações específicas, desde que todos os requisitos de segurança sejam cumpridos.
O caso de Arivaldo também reforça que o debate sobre doação não deve excluir automaticamente pessoas mais velhas. A decisão não é baseada apenas no número de anos vividos, mas no estado geral de saúde e na avaliação dos profissionais responsáveis. A recomendação para quem considera doar é procurar um serviço especializado e nunca tomar a decisão sem orientação médica.