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Saúde

Proibição das bets expõe impactos do vício em apostas sobre saúde e endividamento

Redação Saiu Agora
27 de setembro de 2026 às 17:25
Proibição das bets expõe impactos do vício em apostas sobre saúde e endividamento
Foto: Divulgação
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Para Kaio, de 42 anos, a notícia de que as operações das empresas de apostas on-line, conhecidas como bets, foram proibidas no Brasil trouxe “um grande alívio”. A declaração resume o impacto que o jogo teve na vida de milhares de brasileiros: perda de patrimônio, dívidas, afastamento da família, problemas de saúde mental e dependência de atendimento especializado.

Kaio afirma que perdeu o carro, a casa e o emprego depois de acumular dívidas com apostas. Atualmente, mora sozinho em um dormitório no interior de Goiás, onde dorme no chão. Ele decidiu se afastar dos familiares por temer pela própria segurança, em razão de débitos contraídos com agiotas.

O jogador reconhece que o vício transformou sua vida ao longo dos últimos seis anos. Neste ano, procurou um Centro de Atenção Psicossocial (Caps), serviço público voltado ao atendimento de pessoas com sofrimento mental e problemas relacionados ao uso de álcool, drogas e outras formas de dependência. No Caps, participa de grupos terapêuticos, passa por consultas médicas e toma três medicamentos por dia.

Medida Provisória 1.394 proibiu as apostas on-line no Brasil

A proibição foi estabelecida pela Medida Provisória (MP) 1.394, assinada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva na sexta-feira (25). A medida revogou o capítulo 5 da Lei 13.756, aprovada em dezembro de 2018, no último mês do governo do ex-presidente Michel Temer.

A MP também determinou a devolução dos saldos mantidos pelos apostadores, conforme as regras previstas no texto oficial. A medida ocorre depois de anos de expansão acelerada das plataformas digitais e de aumento dos relatos de prejuízos financeiros e psicológicos associados às apostas.

Embora a autorização legal para as bets tenha surgido em 2018, a regulamentação só foi publicada em dezembro de 2023. Na prática, as plataformas funcionaram durante pelo menos cinco anos com pouca fiscalização e sem um conjunto mais amplo de regras específicas para publicidade, proteção do consumidor e prevenção ao jogo problemático.

Publicidade e falta de informação ampliaram a exposição

Com a regulamentação, passaram a existir exigências como a veiculação de alertas de desestímulo ao jogo e advertências sobre os possíveis malefícios das apostas. Essas mensagens deveriam aparecer nas campanhas dos agentes operadores, ao lado de regras para organizar o funcionamento do setor.

Antes disso, a presença das bets se espalhou por redes sociais, sites, transmissões esportivas e campanhas com influenciadores. A publicidade ajudou a apresentar as apostas como uma forma de entretenimento simples e acessível, muitas vezes associada à possibilidade de ganho rápido. Para pessoas já afetadas por dificuldades econômicas, ansiedade ou outros problemas emocionais, esse tipo de promessa pode aumentar a vulnerabilidade.

A psiquiatra Katia Branco, supervisora do Grupo Pro-Amiti, do Hospital das Clínicas de São Paulo, explica que pessoas em situação de vulnerabilidade estão entre as mais suscetíveis ao desenvolvimento do vício em jogos. O grupo atua no tratamento e no estudo do transtorno do controle de impulsos, condição que pode levar o indivíduo a apostar repetidamente mesmo diante de perdas, dívidas e consequências familiares ou profissionais.

Segundo a especialista, esse público foi atingido por desinformação e publicidade enganosa. O problema não está apenas na perda de dinheiro. O comportamento compulsivo pode comprometer relações pessoais, trabalho, moradia e saúde mental, além de levar o apostador a buscar empréstimos, vender bens ou recorrer a agiotas para continuar jogando.

Como o vício em apostas afeta a vida do apostador

O transtorno relacionado aos jogos de aposta é marcado pela dificuldade de interromper o comportamento. A pessoa pode tentar recuperar o dinheiro perdido com novas apostas, criando um ciclo de prejuízo cada vez maior. A expectativa de ganhar na próxima rodada mantém o jogador ligado à plataforma, mesmo quando os resultados negativos já provocaram consequências graves.

  • Endividamento: o apostador pode comprometer renda, cartões, empréstimos e bens pessoais;
  • Perda de patrimônio: veículos, imóveis e objetos de valor podem ser vendidos para cobrir dívidas ou financiar novas apostas;
  • Problemas familiares: o segredo sobre os valores gastos e a pressão de credores podem provocar conflitos e afastamento;
  • Prejuízos profissionais: a compulsão pode reduzir a concentração, provocar faltas e levar à perda do emprego;
  • Sofrimento mental: ansiedade, depressão, culpa e isolamento podem acompanhar o transtorno.

A história de Kaio reúne vários desses efeitos. Ele perdeu bens, trabalho e contato próximo com a família, além de precisar de atendimento médico e psicoterapêutico. O caso também mostra que o enfrentamento do problema não termina com a restrição das plataformas: pessoas dependentes precisam de acompanhamento contínuo na rede pública de saúde.

Caps oferece tratamento e acompanhamento especializado

Os Caps fazem parte da Rede de Atenção Psicossocial do Sistema Único de Saúde (SUS). As unidades oferecem atendimento multiprofissional e podem organizar consultas, grupos terapêuticos, acompanhamento individual e encaminhamentos conforme a necessidade de cada paciente. A porta de entrada pode ser a unidade básica de saúde, mas o cidadão também deve procurar diretamente os serviços disponíveis em seu município para receber orientação.

O tratamento pode envolver psicólogos, psiquiatras, enfermeiros, assistentes sociais e outros profissionais. A definição das medidas depende da avaliação de cada caso. Além do cuidado médico, o suporte da família e a orientação financeira são importantes para interromper o ciclo de apostas e evitar novas dívidas.

A proibição das bets muda o ambiente regulatório, mas não elimina automaticamente os problemas criados durante o período de expansão das apostas. Pessoas como Kaio ainda precisam lidar com dívidas, ameaças, perda de renda, sofrimento emocional e reconstrução da vida cotidiana.

O caso reforça a necessidade de informação clara sobre os riscos do jogo e de acesso a tratamento. Para quem perdeu o controle sobre as apostas, buscar ajuda em um Caps ou em uma unidade de saúde pode ser o primeiro passo para interromper o ciclo de prejuízos e retomar a própria vida.

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