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Saúde

Escalas de trabalho desequilibradas aumentam risco de adoecimento mental, dizem especialistas

Redação Saiu Agora
21 de setembro de 2026 às 18:05
Escalas de trabalho desequilibradas aumentam risco de adoecimento mental, dizem especialistas
Foto: Divulgação
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O crescimento dos afastamentos por transtornos mentais no Brasil colocou a organização das jornadas de trabalho no centro do debate sobre saúde ocupacional. Um levantamento do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), feito em parceria com a Associação Nacional de Medicina do Trabalho (Anamt), aponta que o número de trabalhadores afastados por problemas de saúde mental aumentou 79% entre 2023 e 2025. Entre os casos que mais chamam atenção está o avanço da síndrome de burnout, condição relacionada ao esgotamento provocado por pressão e sobrecarga profissional.

Os dados indicam que o adoecimento não deve ser analisado apenas como uma questão individual. A forma como as empresas montam escalas, distribuem plantões, administram folgas e comunicam mudanças também pode influenciar o bem-estar das equipes. Quando a rotina é marcada por improvisos, excesso de horas e baixa previsibilidade, o trabalhador pode ter mais dificuldade para descansar, organizar a vida pessoal e manter uma recuperação adequada entre uma jornada e outra.

Falta de previsibilidade pesa na saúde dos trabalhadores

Em setores que funcionam continuamente, como hospitais, transportes, hotelaria, logística, varejo e serviços, as escalas são necessárias para garantir que o atendimento não seja interrompido. O problema aparece quando a distribuição das jornadas fica desequilibrada ou sofre alterações frequentes de última hora.

Para Karla Spadafora, gerente de produtos de saúde da SISQUAL® WFM, empresa especializada em gestão de força de trabalho, o equilíbrio entre vida profissional e pessoal deixou de ser somente uma preocupação operacional. “Em segmentos como a saúde, por exemplo, em que lidamos diariamente com alta complexidade, pressão e a responsabilidade de cuidar de vidas, ter o adequado equilíbrio entre vida profissional e pessoal das equipes deixou de ser uma questão operacional para se tornar uma forma estratégica de garantir a saúde mental da equipe e da instituição”, afirma.

A previsibilidade é importante porque permite que o profissional organize compromissos, sono, deslocamentos e responsabilidades familiares. Em uma rotina com trocas constantes de plantão ou convocações inesperadas, o descanso pode ser reduzido e o trabalhador pode permanecer em estado permanente de alerta. Com o tempo, esse cenário tende a afetar a disposição, a concentração e a qualidade do trabalho.

Sinais de que a escala precisa ser reavaliada

Segundo a especialista, alguns indicadores podem mostrar que a organização das jornadas está contribuindo para o desgaste das equipes. Entre eles estão:

  • aumento do volume de horas extras;
  • trocas frequentes de plantão;
  • crescimento do absenteísmo, quando o trabalhador falta ou se ausenta;
  • elevação do turnover, expressão usada para indicar a rotatividade de funcionários;
  • dificuldade recorrente para preencher determinadas escalas.

Outro sinal de alerta é a concentração da carga horária em um único profissional ou em uma equipe específica. Quando poucos trabalhadores acabam assumindo a maior parte dos turnos, o risco de sobrecarga aumenta e a empresa pode ficar mais vulnerável a faltas, pedidos de desligamento e queda na qualidade do serviço.

“Escalas desequilibradas podem concentrar uma carga maior sobre determinados profissionais ou equipe, o que compromete não apenas o bem-estar individual, mas também a qualidade do trabalho entregue”, avalia Spadafora.

Burnout e afastamentos refletem impacto no trabalho

O burnout é associado ao esgotamento físico e emocional relacionado ao trabalho. Embora o diagnóstico dependa de avaliação profissional, a síndrome costuma ser discutida em contextos de pressão prolongada, falta de recuperação e cobrança excessiva. O aumento dos afastamentos por transtornos mentais torna o tema relevante tanto para os trabalhadores quanto para os empregadores e para o sistema previdenciário.

Na prática, o afastamento de um funcionário também produz efeitos sobre o restante da equipe. Quando uma pessoa deixa de trabalhar, os colegas podem ser chamados a cobrir a ausência, acumulando horas e responsabilidades. Se esse processo se repete, forma-se um ciclo de sobrecarga: mais afastamentos exigem mais cobertura, e a cobertura excessiva pode ampliar o desgaste de quem permanece na função.

Por isso, a análise das escalas precisa considerar mais do que o simples preenchimento dos turnos. É necessário observar a distribuição das horas, o intervalo entre jornadas, a frequência de mudanças, a concentração de plantões e a possibilidade de os profissionais planejarem sua rotina. A gestão desses dados pode ajudar a identificar padrões de risco antes que eles se transformem em crises de pessoal ou novos afastamentos.

Tecnologia pode apoiar planejamento de equipes

A SISQUAL® WFM atua com soluções de gestão de força de trabalho, conhecidas pela sigla WFM, de Workforce Management. A empresa foi fundada em 1992, em Portugal, está há 15 anos no Brasil e informa que sua solução está presente em mais de 750 hospitais no país. A plataforma também é utilizada em áreas como varejo, hotelaria, logística, transportes e serviços.

O software tem funcionamento modular e pode ser usado por gestores para planejar horários, controlar marcações e organizar a rotina das equipes. Esse tipo de ferramenta não substitui decisões de gestão nem o acompanhamento das condições de saúde dos trabalhadores, mas pode reunir informações que ajudam a tornar a escala mais clara e equilibrada.

Entre os possíveis ganhos de um planejamento estruturado estão a identificação de excesso de horas, a visualização de conflitos de agenda, o acompanhamento das trocas de plantão e a distribuição mais uniforme das jornadas. Para o trabalhador, uma escala mais organizada pode significar maior capacidade de planejar a vida fora do emprego. Para a instituição, pode reduzir improvisos e melhorar a continuidade do serviço.

Saúde mental exige responsabilidade compartilhada

O levantamento do INSS e da Anamt não aponta que a escala seja a única causa dos transtornos mentais. O adoecimento pode envolver diferentes fatores, como condições pessoais, ambiente profissional, pressão por resultados, relações de trabalho e ausência de apoio. A organização da jornada, porém, é um dos elementos que podem ser avaliados pelas empresas.

O avanço dos afastamentos reforça a necessidade de tratar a saúde mental como parte da gestão do trabalho. Isso envolve acompanhar indicadores, ouvir os profissionais, evitar mudanças desnecessárias, distribuir as horas com equilíbrio e criar canais para que sinais de sobrecarga sejam comunicados. Também é importante que o trabalhador procure orientação médica ou psicológica diante de sintomas persistentes, sem tentar enfrentar sozinho um quadro de sofrimento.

Em atividades que dependem de plantões e funcionamento ininterrupto, eliminar completamente as mudanças de escala pode não ser possível. O desafio é reduzir a imprevisibilidade evitável e impedir que a responsabilidade pela continuidade do serviço recaia repetidamente sobre as mesmas pessoas. Com o crescimento dos afastamentos por transtornos mentais, a escala deixa de ser apenas uma tabela de horários e passa a ser também um instrumento de prevenção e cuidado.

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