A catarata continua sendo a principal causa de cegueira reversível no mundo, apesar de existir uma cirurgia considerada segura e eficaz pela comunidade médica. Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) indicam que cerca de 94 milhões de pessoas convivem com a doença globalmente. O problema, segundo especialistas, está menos na falta de tratamento e mais nas barreiras que impedem o diagnóstico e o acesso ao procedimento.
A catarata ocorre quando o cristalino, uma estrutura transparente localizada dentro do olho, fica opaco. Essa alteração dificulta a passagem da luz e reduz a nitidez da visão. Com a progressão da doença, tarefas simples, como ler, reconhecer rostos, caminhar à noite ou se deslocar com segurança, podem se tornar mais difíceis.
O quadro faz parte de um cenário maior de deficiência visual não tratada. Estimativas citadas pela OMS apontam que a cegueira atinge cerca de 39 milhões de pessoas no mundo. A organização também calcula que uma em cada duas pessoas que precisam de cirurgia de catarata não consegue realizar o procedimento.
Por que a catarata ainda causa cegueira evitável
Para o oftalmologista Diego Vásquez, do Visare Hospital de Olhos, a permanência da catarata entre as principais causas de perda de visão reversível está diretamente relacionada às dificuldades de acesso ao atendimento. “Embora exista um tratamento cirúrgico eficaz, muitas pessoas ainda enfrentam dificuldades para ter acesso ao diagnóstico e à cirurgia”, afirma.
Entre os obstáculos estão a falta de recursos financeiros, a pouca informação sobre a doença, o medo da cirurgia e a distância entre a residência do paciente e os centros que oferecem profissionais e equipamentos especializados. Em regiões afastadas dos grandes centros, o deslocamento pode representar um custo adicional e dificultar o acompanhamento antes e depois do procedimento.
Também pesa o fato de que muitas pessoas demoram a reconhecer a catarata como um problema que precisa de avaliação médica. A perda de visão costuma ocorrer de maneira gradual, o que pode levar o paciente a adaptar a rotina em vez de procurar atendimento. Essa adaptação, no entanto, não interrompe a evolução da doença.
Sintomas da catarata exigem avaliação oftalmológica
O reconhecimento dos primeiros sinais é um dos fatores que podem favorecer o diagnóstico e o tratamento em tempo adequado. De acordo com o especialista, os sintomas mais comuns incluem:
- Embaçamento ou perda progressiva da nitidez da visão;
- Redução da sensibilidade às cores;
- Aumento da sensibilidade à luz;
- Dificuldade para enxergar durante a noite;
- Necessidade de trocar os óculos com frequência.
A presença desses sinais não confirma, sozinha, que a pessoa tenha catarata. Eles também podem estar relacionados a outras doenças oculares ou condições de saúde. Por isso, a orientação é buscar avaliação com um oftalmologista, profissional habilitado para examinar os olhos, identificar a causa da alteração visual e indicar a conduta adequada.
O acompanhamento é especialmente importante quando a dificuldade para enxergar interfere na leitura, no trabalho, na mobilidade ou em atividades do dia a dia. A visão reduzida também pode aumentar o risco de quedas e acidentes, principalmente entre pessoas idosas.
Medo e falta de informação atrasam busca por tratamento
Mesmo diante de sintomas persistentes, parte dos pacientes adia a consulta por motivos financeiros, receio da cirurgia ou falta de informação. “Alguns pacientes demoram para procurar ajuda por medo da cirurgia, dificuldades financeiras ou falta de informação. Muitas pessoas não sabem que a catarata pode ser tratada cirurgicamente”, explica Vásquez.
O especialista acrescenta que a distância também é um fator relevante. “Quem mora longe dos grandes centros pode ter dificuldade para encontrar atendimento e equipamentos especializados”, pontua.
A cirurgia de catarata é o tratamento utilizado quando a opacidade do cristalino passa a comprometer a visão e a qualidade de vida. O procedimento consiste, de forma geral, na retirada do cristalino opaco e na colocação de uma lente intraocular. A indicação, o tipo de lente e os cuidados necessários dependem da avaliação individual de cada paciente.
Quando procurar atendimento
Não é necessário esperar a perda total da visão para buscar ajuda. A consulta oftalmológica deve ser considerada diante de qualquer mudança persistente na qualidade da visão, sobretudo quando há embaçamento, dificuldade para enxergar à noite ou troca frequente de óculos sem melhora satisfatória.
O diagnóstico precoce permite acompanhar a evolução da doença e discutir o tratamento com mais segurança. Em casos de pessoas com outras doenças oculares, diabetes ou histórico de alterações na visão, o acompanhamento regular é ainda mais importante.
Embora a catarata seja associada principalmente ao envelhecimento, a avaliação médica é necessária para diferenciar o problema de outras causas de deficiência visual. O acesso à informação e ao atendimento especializado é parte essencial da prevenção da cegueira evitável.
Tratamento depende de acesso e diagnóstico
A existência de uma cirurgia eficaz não garante, por si só, que todos os pacientes consigam recuperar a visão. É necessário que a pessoa tenha acesso à consulta, aos exames, à indicação cirúrgica, ao procedimento e ao acompanhamento posterior.
Por isso, o enfrentamento da catarata envolve tanto a atuação dos serviços de saúde quanto a orientação da população. Reconhecer os sinais, não normalizar a piora da visão e procurar atendimento são medidas importantes para reduzir o impacto da doença.
Em um cenário no qual milhões de pessoas ainda convivem com perda visual tratável, a catarata permanece como um problema de saúde pública. O diagnóstico e o tratamento adequados podem evitar que uma alteração inicialmente reversível avance para uma condição incapacitante.