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Saúde

Apostas online ampliam dependência entre jovens e pressionam o SUS

Redação Saiu Agora
19 de setembro de 2026 às 16:14
Apostas online ampliam dependência entre jovens e pressionam o SUS
Foto: Divulgação
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O avanço das apostas online entre adolescentes e jovens adultos tem aumentado a procura por ajuda especializada, provocado perdas financeiras expressivas e elevado a demanda por atendimento em saúde mental no Brasil. Dados reunidos por órgãos públicos e entidades de pesquisa mostram que o problema já alcança pessoas muito jovens e gera um impacto estimado em R$ 30,6 bilhões por ano para o Sistema Único de Saúde (SUS).

Luiz Carlos, integrante da irmandade Jogadores Anônimos, grupo de apoio voltado a pessoas com problemas relacionados ao jogo, afirma que adolescentes de 14 anos já chegam em busca de ajuda. Segundo ele, também são frequentes os casos de jovens de 15, 16, 19 e 20 anos, além de adultos de até 35 anos.

“Hoje quem chega à irmandade é muito jovem. Já chegou até de 14 anos acompanhado pelo psiquiatra. Mas chegam jovens de 15, 16, 19, 20 anos, até 30, 35 anos”, relata.

Celular facilita acesso e reduz percepção do risco

As chamadas bets são plataformas digitais que permitem apostas, principalmente em eventos esportivos e jogos de resultado. Como o acesso ocorre pelo celular, a atividade pode ser iniciada a qualquer hora e sem a necessidade de frequentar um estabelecimento físico. Essa facilidade aumenta a exposição de crianças, adolescentes e jovens, além de dificultar que familiares percebam o problema no início.

Dados do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) indicam que uma em cada cinco pessoas no mundo começa a apostar em jogos online até os 11 anos. A proporção chega a 78% a partir dos 12 anos. Os números são de 2021 e foram apresentados como ainda atuais no debate sobre a expansão das apostas digitais.

Uma pesquisa realizada no Brasil e divulgada pela Frente Parlamentar Mista de Educação reforça a preocupação. Entre 1.912 estudantes dos ensinos fundamental e médio entrevistados, 9,5% disseram ter feito a primeira aposta aos 11 anos. O levantamento também aponta que quase metade dos estudantes do 3º ano do ensino médio já teve contato com apostas, conforme os dados apresentados no estudo.

Jovem relata perda de R$ 500 mil em seis anos

O caso de Gustavo Pereira, de 24 anos, mostra como a dependência pode afetar simultaneamente a vida financeira e a saúde mental. Morador de Lages, em Santa Catarina, ele começou a apostar pela internet aos 18 anos. Em seis anos, calcula ter perdido aproximadamente R$ 500 mil.

Gustavo afirma que, no começo, chegou a transformar R$ 10 mil em R$ 300 mil e também obteve ganhos de R$ 200 mil e R$ 240 mil. As vitórias, porém, aumentaram a disposição para correr riscos e fizeram com que ele perdesse a dimensão do valor do dinheiro.

“Ganhava muito bem na época, já fiz R$ 10 mil virarem R$ 300 mil, já fiz bancas inimagináveis, fiz R$ 10 mil virarem R$ 200 mil, R$ 240 mil, e perdi tudo. Então o dinheiro começou a perder valor para mim, eu comecei a perder a dimensão do dinheiro, na minha conta não tinha todo aquele valor, mas lá na bet tinha, e o vício faz isso, te enche de ganância”, conta.

O jovem relata que passou a pensar em apostas ao acordar e antes de dormir. Nesse período, enfrentou depressão e síndrome do pânico. Há cerca de dois meses sem apostar, tenta reconstruir a rotina vendendo café nas ruas de Lages. Ele também mantém um perfil nas redes sociais para divulgar o trabalho e compartilhar a experiência de superar a dependência e evitar recaídas.

“Eu dormia pensando em apostar e acordava pensando em apostar. Nestes seis anos, eu enfrentei muitas coisas, mudei com a depressão, uma síndrome do pânico, e graças a Deus eu me libertei disso. Hoje vendo café na rua e, se estou aqui, foi graças a Deus, à minha fé, me apeguei nas pessoas que amo, consegui superar isso, e hoje meu propósito de vida é ajudar pessoas”, afirma.

Impacto no SUS chega a R$ 30,6 bilhões por ano

Estudo do Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (IEPS) estima em R$ 30,6 bilhões anuais o impacto financeiro dos danos causados pelas apostas online no SUS. O cálculo inclui despesas relacionadas ao tratamento de depressão, ansiedade e outros problemas de saúde mental, além dos impactos associados às mortes por suicídio.

O SUS é a rede pública responsável por oferecer atendimento de saúde à população em todo o país. No caso da dependência em jogos e apostas, a assistência pode envolver unidades básicas de saúde, serviços especializados em saúde mental, atendimento psiquiátrico e acompanhamento psicossocial. A pressão sobre essa estrutura aumenta quando os casos chegam em estágio avançado ou associados a endividamento, conflitos familiares e sofrimento psicológico.

Apesar do tamanho estimado do impacto, apenas 1% do valor arrecadado pelas operadoras de apostas é destinado ao Ministério da Saúde para ajudar a reduzir os danos. Nos últimos cinco anos, a busca por atendimento no SUS relacionada à dependência de apostas online e jogos de azar cresceu 140%.

Teleatendimento amplia capacidade para até 100 mil consultas mensais

De acordo com Marcelo Kimati, diretor de Saúde Mental do Ministério da Saúde, o aumento da procura foi identificado em toda a Rede de Atenção Psicossocial. A rede reúne serviços públicos voltados ao cuidado de pessoas com sofrimento mental e problemas relacionados ao uso de substâncias ou a outras formas de dependência.

Como resposta, o governo federal criou uma porta de entrada eletrônica para pessoas com problemas relacionados a jogos e apostas. Desde fevereiro, cerca de 20 mil pessoas se cadastraram após realizar um teste na plataforma de atendimento.

“Desde fevereiro deste ano, quando nós criamos uma porta de entrada para atendimentos a jogos e apostas de forma eletrônica, nós tivemos uma procura de 20 mil pessoas que se cadastraram após fazerem um teste”, disse Kimati.

A capacidade do serviço foi ampliada de 600 para até 100 mil teleatendimentos por mês, em parceria com a Agência Brasileira de Apoio à Gestão do SUS (AgSUS). O atendimento remoto busca facilitar o primeiro contato de quem tem dificuldade de procurar uma unidade presencial ou ainda não reconhece a própria relação com as apostas como um problema de saúde.

Mais de 5 milhões de CPFs foram bloqueados

Outro indicador do tamanho do fenômeno é a plataforma de autoexclusão lançada pelo Ministério da Fazenda. O serviço permite que o usuário peça o bloqueio do acesso a sites de apostas online autorizados a operar pelo governo federal. A ferramenta pode ser usada como uma barreira adicional por pessoas que desejam interromper o comportamento e reduzir o risco de recaída.

Mais de 5 milhões de CPFs já foram bloqueados nas plataformas autorizadas. Entre os impedidos estão beneficiários do Bolsa Família e do Benefício de Prestação Continuada (BPC), além de pessoas incluídas em programas de renegociação de dívidas.

Mais de 1 milhão de usuários solicitaram voluntariamente a autoexclusão. Quase metade declarou ter problemas de saúde mental relacionados às apostas. O dado indica que parte dos próprios apostadores reconhece a perda de controle e procura um mecanismo externo para impedir o acesso às plataformas.

Medidas de proteção não substituem tratamento

O bloqueio do CPF pode ajudar a interromper o acesso, mas não substitui o acompanhamento profissional. A dependência pode continuar por meio de tentativas de contornar as restrições, uso de contas de terceiros ou migração para plataformas não autorizadas. Por isso, a orientação é buscar atendimento na rede de saúde e apoio de familiares, além de interromper o acesso financeiro às apostas sempre que possível.

A experiência de Gustavo mostra a importância de combinar essas estratégias. Ele utilizou a plataforma de autoexclusão para se manter afastado das bets e evitar novas recaídas. Também passou a concentrar a rotina no trabalho e no contato com pessoas próximas.

Para especialistas e profissionais que atuam na área, o crescimento dos casos exige prevenção nas escolas, informação para as famílias, fiscalização da publicidade e ampliação da assistência em saúde mental. A presença cada vez mais precoce das apostas na vida dos estudantes mostra que o problema deixou de ser apenas financeiro: trata-se também de uma questão de saúde pública, proteção de crianças e adolescentes e responsabilidade das plataformas digitais.

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