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Polícia

Zanin manda investigar uso de inteligência artificial para tentar burlar sistema do STF

Redação Saiu Agora
25 de setembro de 2026 às 23:33
Zanin manda investigar uso de inteligência artificial para tentar burlar sistema do STF
Foto: Divulgação
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O ministro Cristiano Zanin, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinou nesta sexta-feira (25) a abertura de uma investigação para apurar o uso de inteligência artificial (IA) em uma tentativa de direcionar o sistema eletrônico da Corte. O caso envolve um recurso relacionado à aplicação de cotas raciais para ingresso no Ministério Público de Minas Gerais (MPMG).

Segundo a decisão, foi identificado o uso de um prompt de comando — instrução escrita dada a um sistema de inteligência artificial — para forçar o sistema eletrônico do Supremo a aceitar automaticamente o recurso protocolado. A suspeita será investigada pelas autoridades competentes, que deverão verificar como a ferramenta foi utilizada, quem participou da ação e se houve intenção de interferir de maneira indevida no funcionamento do tribunal.

Como a tentativa foi identificada

A interferência foi detectada por uma ferramenta de inteligência artificial desenvolvida pelo setor de tecnologia da informação do próprio STF. O recurso tecnológico foi criado para identificar possíveis ações maliciosas ou anormais dirigidas aos sistemas digitais da Corte.

Na prática, esse tipo de mecanismo busca reconhecer comandos, padrões de acesso ou comportamentos que possam alterar indevidamente o fluxo normal de um processo eletrônico. A tecnologia não substitui a análise jurídica nem a investigação formal, mas atua como uma camada de segurança para alertar o tribunal sobre tentativas de manipulação, fraude ou violação dos protocolos digitais.

A adoção de ferramentas desse tipo ocorre em um cenário em que tribunais dependem cada vez mais de plataformas eletrônicas para receber petições, distribuir processos, registrar recursos e comunicar decisões. O funcionamento correto desses sistemas é essencial para garantir que os pedidos sejam protocolados de acordo com as regras, dentro dos prazos e sem favorecimento artificial provocado por comandos externos.

Investigação será encaminhada ao Ministério Público Federal

Além de identificar o episódio, Zanin solicitou ao Ministério Público Federal (MPF) a abertura de uma investigação. O MPF é responsável por atuar em questões de interesse federal e poderá analisar os fatos, reunir informações técnicas e verificar se houve prática de crime ou outra irregularidade.

A investigação deverá considerar, entre outros pontos, o conteúdo do comando utilizado, a forma como ele foi inserido no sistema e os efeitos produzidos sobre o recurso relacionado ao concurso ou ao ingresso no Ministério Público de Minas Gerais. Também será necessário esclarecer se o sistema chegou a aceitar o recurso de forma automática ou se a tentativa foi bloqueada antes de produzir consequência processual.

A determinação do ministro não representa, por si só, uma condenação criminal. O objetivo desta etapa é esclarecer o que ocorreu e identificar eventuais responsabilidades. A confirmação de ilícitos dependerá da apuração conduzida pelos órgãos competentes e da análise das provas disponíveis.

OAB poderá analisar conduta de advogado

Zanin também determinou que a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) seja comunicada sobre o caso. A entidade poderá avaliar a adoção de medidas disciplinares contra o advogado responsável pela causa.

A comunicação à OAB ocorre porque a advocacia está submetida a deveres profissionais e éticos, entre eles a obrigação de agir com lealdade processual. Esse princípio exige que as partes e seus representantes utilizem os instrumentos judiciais de forma correta, sem criar obstáculos artificiais, apresentar informações falsas ou tentar obter vantagem por meios incompatíveis com as regras do processo.

De acordo com a decisão, o ministro aplicou ao defensor uma multa correspondente a dois salários pela violação do dever de lealdade processual. A penalidade tem natureza processual e se soma à possibilidade de análise disciplinar pela OAB e à investigação que será conduzida pelo Ministério Público Federal.

Entenda o impacto para os processos eletrônicos

O episódio chama atenção para os riscos do uso indevido de inteligência artificial em ambientes judiciais. A tecnologia pode auxiliar advogados, tribunais e cidadãos na organização de informações, na localização de documentos e na automação de tarefas. No entanto, não pode ser utilizada para alterar o funcionamento de sistemas, burlar filtros de segurança ou fazer com que uma petição receba tratamento diferente daquele previsto nas normas.

Os sistemas eletrônicos dos tribunais são estruturados para registrar a data e o horário de cada ato, receber documentos, encaminhar processos e preservar a integridade das informações. Uma tentativa de interferência pode comprometer a confiabilidade desses registros e afetar a igualdade entre as partes, especialmente em processos com prazos e requisitos específicos.

No caso em apuração, os principais pontos são:

  • o recurso tratava da aplicação de cotas raciais para ingresso no MPMG;
  • foi utilizado um prompt para tentar direcionar o sistema eletrônico do STF;
  • a ação foi identificada por uma ferramenta de IA criada pela área de tecnologia do tribunal;
  • o MPF foi acionado para investigar o episódio;
  • a OAB será comunicada para avaliar eventual medida disciplinar;
  • o advogado recebeu multa de dois salários por violação do dever de lealdade processual.

Debate sobre cotas raciais continua no centro do caso

Embora a investigação tenha como foco principal o uso indevido da tecnologia e a tentativa de interferência no sistema, o processo de origem envolve um tema de grande relevância social: a adoção de cotas raciais para o ingresso no Ministério Público de Minas Gerais.

As cotas raciais são políticas de ação afirmativa destinadas a ampliar a presença de grupos historicamente sub-representados em instituições públicas. A aplicação dessas regras depende de editais, normas específicas e decisões administrativas ou judiciais, conforme o caso. Qualquer discussão sobre o tema precisa seguir o devido processo legal, com apresentação de argumentos, documentos e recursos pelos canais oficiais.

Por isso, a tentativa de obter o recebimento automático de um recurso pode ter impacto que ultrapassa a disputa entre as partes. A regularidade do procedimento é necessária para que decisões sobre políticas públicas e direitos de acesso a cargos públicos sejam tomadas com base em argumentos analisados de forma transparente e dentro das regras.

Até o momento, a determinação de Zanin estabelece a apuração dos fatos, a comunicação à OAB e a aplicação da multa processual. As responsabilidades criminais, civis ou disciplinares eventualmente identificadas dependerão do resultado das investigações.

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