Alfenas tem a maior proporção de agressões contra mulheres ocorridas dentro de casa entre os cinco principais polos do Sul de Minas analisados em dados de 2026 da Secretaria de Estado de Saúde de Minas Gerais (SES-MG). Do total de agressões interpessoais registradas pela rede pública de saúde no município, 67,9% aconteceram no espaço doméstico, percentual acima da média estadual, de 61,5%.
O levantamento mostra que, para muitas mulheres, o ambiente que deveria oferecer proteção também é o local mais frequente da violência. O dado inclui atendimentos realizados pelos serviços de saúde e ajuda a dimensionar uma realidade que, muitas vezes, permanece escondida até que a vítima precise procurar uma unidade médica. A notificação na saúde é uma ferramenta importante para identificar casos de violência, embora não represente necessariamente todo o universo de agressões ocorridas, já que muitas vítimas não denunciam nem buscam atendimento.
Alfenas supera outros polos do Sul de Minas
Além de Alfenas, outras cidades da região também apresentaram índices elevados de violência dentro da residência da vítima. Em quatro dos cinco municípios analisados, mais de 58% dos registros ocorreram no ambiente doméstico.
- Alfenas: 67,9% das agressões ocorreram dentro de casa;
- Poços de Caldas: 64,3%;
- Itajubá: 64,1%;
- Varginha: 58,6%;
- Lavras: 43,6%.
Lavras foi a única cidade do recorte em que a proporção ficou abaixo da metade. A diferença entre os municípios pode estar relacionada a fatores como o perfil das notificações, a forma de atuação dos serviços e o acesso das vítimas às redes de atendimento. Os dados, no entanto, reforçam que a violência doméstica é um problema regional e não uma situação isolada de uma única cidade.
Força física aparece na maioria dos atendimentos
Quando a violência chega à rede de saúde, o tipo de agressão mais frequente é o uso da força física. Em todas as cidades avaliadas, mais de 78% dos atendimentos médicos por violência de gênero envolveram esse tipo de agressão. O maior percentual foi registrado em Itajubá, com 89,4%.
A predominância da violência física não significa que outras formas de abuso sejam menos graves. A violência psicológica, a ameaça, o controle da rotina, o isolamento social e a violência patrimonial também podem fazer parte do ciclo de agressões e, em muitos casos, anteceder episódios de maior gravidade. Como nem todo abuso deixa marcas visíveis, a identificação depende de escuta qualificada e de uma avaliação cuidadosa por parte dos profissionais.
Os registros de violência psicológica variaram bastante entre os municípios. Poços de Caldas apresentou o maior percentual, de 57,1%, enquanto Lavras teve 5,1%. A diferença chama atenção para a dificuldade de reconhecer e registrar esse tipo de violência nos atendimentos. Em situações nas quais a vítima chega ao serviço de saúde apenas após uma lesão física, o abuso emocional que pode ter ocorrido antes nem sempre aparece na notificação.
Homens são os principais agressores registrados
O levantamento também revela um padrão semelhante em toda a região quanto à autoria das agressões. Os homens aparecem como os principais agressores em todas as localidades analisadas. Em Alfenas, eles foram apontados em 77,8% dos registros; em Varginha, o percentual chegou a 76,3%.
Esse perfil está associado, principalmente, a situações de violência praticadas por companheiros, ex-companheiros ou outros homens do círculo de convivência da vítima. A informação é relevante para a prevenção porque mostra que o risco, em muitos casos, não vem de um desconhecido, mas de alguém que tem acesso à residência, conhece a rotina da mulher e pode exercer controle sobre sua vida.
Lesões autoprovocadas indicam crise de saúde mental
Os números de 2026 também apontam para uma dimensão menos visível do problema: o impacto da violência e do sofrimento emocional sobre a saúde mental das mulheres. Em Lavras, 47% das notificações femininas na rede de saúde foram relacionadas a lesões autoprovocadas. Em Alfenas, o índice foi de 46,1%. Os dois percentuais estão acima da média de Minas Gerais, que ficou em 39,3%.
Lesões autoprovocadas são ferimentos causados pela própria pessoa e podem estar relacionados a sofrimento psíquico intenso. O registro não permite, sozinho, explicar a causa de cada ocorrência, mas funciona como um alerta para a necessidade de atendimento integral, com avaliação médica e acompanhamento em saúde mental. Em municípios com forte presença universitária, como Alfenas e Lavras, o dado merece atenção especial, principalmente entre mulheres jovens, sem que isso signifique restringir o problema a esse grupo.
Rede de proteção precisa identificar a violência antes da lesão
Os dados mostram que a violência contra a mulher chega aos serviços públicos de diferentes formas. Algumas vítimas procuram atendimento após agressões físicas; outras podem apresentar sinais de sofrimento psicológico, ansiedade, medo, isolamento ou lesões autoprovocadas. Por isso, a resposta não depende apenas do atendimento emergencial, mas também da capacidade de hospitais, unidades básicas de saúde, assistência social, forças de segurança e órgãos de Justiça atuarem de forma articulada.
A notificação feita pelos serviços de saúde não substitui o registro de ocorrência e não significa, por si só, a abertura de um processo criminal. Ela serve para produzir informação epidemiológica, orientar políticas públicas e permitir que os casos sejam acompanhados pela rede responsável. Já a denúncia formal pode ser feita pelos canais de segurança e proteção disponíveis, conforme a situação e a decisão da vítima.
Em Minas Gerais, o Disque 180 oferece orientação e recebe denúncias de violência contra a mulher. Em situações de emergência, a orientação é acionar o 190. A mulher também pode procurar uma unidade de saúde, a assistência social, a Delegacia de Polícia ou outros serviços públicos de proteção. O mais importante é buscar ajuda com segurança e, quando possível, contar com uma pessoa de confiança.
Para Alfenas, o percentual de 67,9% reforça a necessidade de manter atenção permanente à violência praticada dentro de casa. O desafio é fazer com que os serviços consigam reconhecer os sinais antes que o abuso avance, acolher a vítima sem julgamentos e garantir encaminhamento adequado. Mais do que uma estatística, o dado revela que a porta de entrada do problema pode estar no mesmo endereço em que a mulher deveria se sentir protegida.