A ergonomia no trabalho deixou de ser tratada apenas como uma questão de cadeira, mesa e postura. Com a atualização da Norma Regulamentadora nº 17 (NR-17), em vigor desde 3 de janeiro de 2022, a análise das condições de trabalho passou a considerar também a organização das atividades, o ritmo de produção, as pausas, a autonomia e as exigências cognitivas enfrentadas pelos trabalhadores.
A mudança amplia a responsabilidade das empresas e dos órgãos públicos com empregados regidos pela Consolidação das Leis do Trabalho (CLT). A norma estabelece diretrizes para adaptar as condições de trabalho às características psicofisiológicas dos trabalhadores, com o objetivo de promover conforto, segurança, saúde e desempenho eficiente.
O que mudou na NR-17 sobre ergonomia
Na prática, a atualização da norma determina que a ergonomia seja observada de forma mais ampla. O foco não está apenas nos equipamentos usados durante o expediente, mas na maneira como o trabalho é planejado e executado no dia a dia.
Isso significa que uma avaliação pode considerar, entre outros fatores:
- mobiliário e equipamentos utilizados pelo trabalhador;
- condições de conforto no ambiente de trabalho;
- ritmo e exigências da atividade;
- existência e adequação de pausas;
- grau de autonomia para realizar as tarefas;
- aspectos cognitivos e características reais da situação de trabalho.
O objetivo é identificar se a forma como o serviço foi organizado pode contribuir para desconforto, sobrecarga ou adoecimento. A análise também deve considerar que trabalhadores que ocupam a mesma função podem enfrentar situações diferentes, dependendo dos equipamentos, da equipe, da pressão por resultados e das condições concretas do ambiente.
Da cadeira ao desenho do trabalho
Durante muito tempo, a ergonomia foi associada principalmente à escolha de uma cadeira adequada ou à altura correta de uma mesa. Esses itens continuam importantes, mas a NR-17 atualizada amplia o olhar para o chamado desenho do trabalho.
Entram nessa avaliação fatores como a distribuição das tarefas, o tempo disponível para executá-las, a necessidade de repetição, o volume de informações processadas e a possibilidade de o trabalhador ajustar a maneira de realizar uma atividade. Também podem ser observadas as pausas e a forma como as demandas são organizadas ao longo da jornada.
O pesquisador da Fundacentro José Marçal Jackson Filho resume essa evolução ao explicar que a Análise Ergonômica do Trabalho, conhecida pela sigla AET, “deixa de lado o foco nos riscos, olha para singularidades da situação de trabalho”.
A declaração reforça que a ergonomia não deve ser aplicada apenas como uma lista de riscos previamente definidos. É preciso observar o trabalho real, entender como as tarefas são executadas e ouvir quem vive aquela rotina. O trabalhador pode indicar dificuldades que não aparecem em uma avaliação restrita ao espaço físico ou aos equipamentos.
Avaliação Ergonômica Preliminar e análise do trabalho
A própria NR-17 prevê que a organização realize uma Avaliação Ergonômica Preliminar. Esse procedimento serve para identificar situações que possam exigir medidas de adequação e para orientar a prevenção de problemas relacionados às condições de trabalho.
A avaliação preliminar pode ajudar a empresa a reconhecer, de maneira antecipada, pontos que precisam de correção. Dependendo da situação, a análise pode indicar a necessidade de uma investigação mais detalhada, com observação da atividade, levantamento das condições encontradas e participação dos trabalhadores.
A Análise Ergonômica do Trabalho (AET) é um instrumento utilizado para compreender com mais profundidade a relação entre a tarefa prevista e aquilo que realmente acontece durante a jornada. Essa diferença é importante porque procedimentos escritos nem sempre mostram adaptações, dificuldades ou estratégias usadas pelos trabalhadores para conseguir cumprir as exigências do serviço.
Na avaliação das condições reais, podem ser considerados:
- como as tarefas são distribuídas e executadas;
- quais são as exigências físicas e mentais da atividade;
- quais dificuldades aparecem durante a jornada;
- como os trabalhadores lidam com imprevistos;
- quais mudanças podem tornar o trabalho mais seguro e compatível com as capacidades humanas.
Participação dos trabalhadores ganha importância
Outro ponto central da abordagem atual é a participação dos trabalhadores. A experiência de quem executa a atividade pode contribuir para localizar problemas e encontrar soluções mais adequadas à rotina. Essa participação também evita que a ergonomia seja reduzida a uma decisão administrativa ou à simples compra de equipamentos.
Para José Marçal Jackson Filho, um dos princípios da ergonomia é “garantir o poder de agir das pessoas”. A ideia significa criar condições para que o trabalhador consiga realizar sua atividade de maneira compatível com suas características e com as exigências do serviço.
Esse princípio tem efeito prático em diferentes ambientes. Um equipamento novo, por exemplo, pode não resolver o problema se o ritmo de trabalho continuar excessivo, se não houver pausas adequadas ou se o trabalhador não tiver possibilidade de ajustar o modo de execução da tarefa. Da mesma forma, uma mudança na organização pode ser insuficiente quando o mobiliário e as condições físicas do local permanecem inadequados.
Quem deve observar a norma
A NR-17 se aplica às situações de trabalho abrangidas por suas disposições em organizações e órgãos públicos que tenham empregados regidos pela CLT. A norma reúne orientações sobre mobiliário, equipamentos, condições de conforto, organização do trabalho e procedimentos de avaliação ergonômica.
O cumprimento dessas diretrizes interessa tanto aos empregadores quanto aos trabalhadores. Para as organizações, a avaliação pode orientar medidas de prevenção e adequação do ambiente. Para os empregados, a norma fortalece a compreensão de que saúde ocupacional não depende apenas da postura individual, mas também da forma como o trabalho é planejado e cobrado.
Atualização e responsabilidade das empresas
A versão atual da NR-17 entrou em vigor em janeiro de 2022 e teve sua última modificação pela Portaria MTP nº 4.219, publicada em dezembro de 2022. A atualização acompanha uma visão de ergonomia que considera a interação entre pessoas, equipamentos, ambiente e organização do trabalho.
Por isso, a adequação às regras não deve ser tratada como uma ação isolada. A troca de uma cadeira, a alteração da altura de uma bancada ou a instalação de um equipamento podem fazer parte da solução, mas não substituem a avaliação do conjunto. A pergunta central passa a ser se a organização oferece condições para que a atividade seja realizada com segurança, conforto e eficiência.
Com essa mudança de abordagem, a ergonomia passa a olhar menos para um modelo ideal de trabalhador e mais para as situações concretas encontradas nos locais de trabalho. O resultado esperado é uma prevenção baseada na realidade, com espaço para participação, identificação de dificuldades e adoção de medidas capazes de melhorar efetivamente a relação entre trabalhadores e suas atividades.