A inteligência artificial deixou de ser usada apenas para automatizar tarefas e acelerar a produção de textos. Empresas passaram a aplicar a tecnologia também para reaproveitar informações, personalizar mensagens e ampliar os canais de contato com clientes. Uma palestra, entrevista ou participação em evento pode ser convertida em artigo, podcast, newsletter, publicação para redes sociais e material comercial voltado a públicos diferentes.
O movimento acompanha uma mudança na forma como as empresas tratam o conteúdo. Em vez de produzir cada peça de comunicação do zero, equipes de marketing podem partir de uma informação central e adaptá-la de acordo com o canal, o objetivo e o perfil de quem vai receber a mensagem. A estratégia reduz o tempo de produção, mas também busca aumentar a consistência da comunicação.
IA organiza e distribui conhecimento em diferentes formatos
Para Sandro Ari Pinto, vice-presidente da PAGOS – Associação Brasileira do Ecossistema de Pagamentos, a tecnologia começa a ser compreendida para além do ganho de produtividade.
Durante muito tempo, a inteligência artificial foi associada principalmente à ideia de fazer mais em menos tempo. Agora, começamos a perceber que seu potencial vai além da produtividade. Uma única informação de qualidade pode ser organizada, adaptada e distribuída em diferentes formatos, afirma Pinto.
Na prática, o processo pode começar com o registro de uma palestra ou de uma entrevista. A ferramenta de IA identifica os principais temas, organiza os argumentos, separa informações relevantes e ajuda a adaptar o conteúdo para diferentes linguagens. Um texto mais aprofundado pode virar um artigo; os principais pontos podem ser transformados em uma newsletter; uma conversa mais longa pode dar origem a um podcast; e trechos específicos podem ser usados em redes sociais ou em materiais de apresentação comercial.
Essa transformação não significa que a inteligência artificial seja a autora do conhecimento. A análise, a experiência e as opiniões continuam sendo atribuídas aos especialistas que participaram da atividade original. A ferramenta atua na organização, na edição e na distribuição do material.
A IA não criou o conhecimento. Ele continuou pertencendo aos especialistas. O que a tecnologia fez foi ampliar nossa capacidade de aproveitar, organizar e distribuir esse conhecimento, diz Pinto.
Exemplo reúne economia, política e produção de conteúdo
Um caso citado envolve uma palestra de André Esteves e Mansueto Almeida durante o Fórum Empreendedor BTG Pactual, realizado em São Paulo. O conteúdo apresentado no evento tratou da conjuntura econômica e política brasileira. Depois, foi processado por uma ferramenta de inteligência artificial, que produziu um resumo das discussões e, em seguida, estruturou um podcast.
O exemplo mostra como uma informação originalmente apresentada para o público de um evento pode alcançar outras pessoas e ser consumida em momentos diferentes. Quem não acompanhou a palestra pode ter acesso ao conteúdo por meio de um resumo ou de um programa em áudio. Para a empresa, isso amplia a vida útil do material e cria novas oportunidades de relacionamento com o público.
O detalhamento do caminho percorrido entre a palestra original e os formatos finais foi disponibilizado em uma página específica sobre o uso da ferramenta. A sequência também ajuda a entender que a aplicação da IA não se resume à geração automática de textos. É preciso definir qual informação será aproveitada, para quem ela será direcionada e qual formato é mais adequado para cada finalidade.
O que muda para empresas e clientes
Quando bem planejada, a estratégia permite que uma empresa converse com diferentes públicos sem abandonar a mensagem principal. Um cliente pode preferir um vídeo curto, enquanto outro busca uma análise detalhada ou um conteúdo em áudio. A adaptação aumenta os pontos de contato e pode facilitar o acesso à informação.
- Mais formatos: uma mesma palestra ou entrevista pode originar artigos, podcasts, newsletters e publicações para redes sociais.
- Personalização: o conteúdo pode ser ajustado conforme o perfil do público, o canal utilizado e o objetivo da comunicação.
- Agilidade: tarefas de transcrição, resumo, organização e edição podem ser realizadas em menos tempo.
- Maior alcance: materiais produzidos para um evento podem chegar a pessoas que não participaram presencialmente.
- Continuidade: uma informação pontual passa a ser usada em diferentes momentos da estratégia comercial.
Apesar das possibilidades, a adoção da tecnologia exige revisão humana. Sistemas de IA podem resumir de forma inadequada, retirar uma informação do contexto ou reproduzir erros presentes no material de origem. Por isso, especialistas e equipes de comunicação precisam conferir dados, nomes, números, interpretações e direitos de uso antes da publicação.
Também é necessário deixar claro quando um conteúdo foi gerado ou adaptado com auxílio tecnológico, especialmente em temas econômicos, políticos e financeiros. A transparência ajuda o público a compreender como a informação foi produzida e preserva a responsabilidade de quem divulga o material.
Setor financeiro amplia uso de dados e personalização
O setor financeiro aparece entre os segmentos que mais exploram a combinação de tecnologia, dados e comunicação personalizada. Bancos e instituições financeiras lidam diariamente com grandes volumes de informações e precisam oferecer serviços por aplicativos, sites, centrais de atendimento e outros canais digitais.
Um dado do mercado internacional ajuda a dimensionar essa transformação. Em 2025, o BBVA conquistou 11,5 milhões de novos clientes. Desse total, 66% chegaram por canais digitais. No mesmo período, as vendas digitais representaram 78,8% do total de unidades vendidas pelo banco.
Os números indicam que os canais digitais já não funcionam apenas como apoio ao atendimento tradicional. Eles passaram a ocupar posição central na aquisição de clientes e na venda de produtos. Nesse ambiente, a produção de mensagens mais adequadas a cada público pode ajudar a orientar o consumidor, explicar serviços e manter o relacionamento depois da contratação.
A personalização, no entanto, depende da qualidade dos dados e do uso responsável das informações. A instituição precisa respeitar regras de privacidade, segurança e proteção de dados, além de evitar abordagens que pareçam invasivas ou discriminatórias. No Brasil, a Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais (LGPD) estabelece princípios e obrigações para o tratamento de dados pessoais, incluindo transparência, segurança e finalidade.
Produtividade não substitui estratégia
A expansão da inteligência artificial não elimina a necessidade de planejamento editorial ou de conhecimento sobre o público. A ferramenta pode acelerar a transformação de um conteúdo, mas não decide sozinha qual mensagem deve ser priorizada, qual informação precisa de mais contexto ou qual abordagem é adequada para cada cliente.
O resultado depende da combinação entre tecnologia, curadoria e conhecimento humano. A empresa precisa selecionar fontes confiáveis, revisar o material produzido e definir critérios para medir se o conteúdo realmente contribuiu para informar, aproximar e conquistar clientes.
O avanço observado no marketing e no setor financeiro aponta, portanto, para uma mudança de função da IA. A tecnologia continua sendo usada para fazer mais em menos tempo, mas seu valor estratégico está também na capacidade de transformar um único conhecimento em vários produtos de comunicação, mantendo a informação acessível em diferentes formatos e canais.