A indústria manufatureira está passando por uma mudança estrutural provocada pela expansão da automação, da inteligência artificial (IA) e de outras tecnologias digitais. O avanço promete elevar a produtividade e transformar processos, mas também aumenta a pressão para que empresas e trabalhadores desenvolvam novas competências.
Um levantamento do ManpowerGroup mostra que 93% dos fabricantes esperam que a robótica e a chamada manufatura inteligente modifiquem sua força de trabalho. A resposta das empresas ocorre principalmente por dois caminhos: 50% pretendem requalificar profissionais que já fazem parte dos quadros, enquanto 42% planejam contratar pessoas para novas funções.
Automação muda o perfil dos empregos na indústria
A automação não significa apenas a substituição de tarefas manuais por máquinas. Na prática, ela altera a rotina de diversas ocupações e cria demanda por trabalhadores capazes de operar sistemas digitais, interpretar dados, acompanhar equipamentos automatizados e resolver problemas com mais autonomia.
Para Nilson Pereira, CEO do ManpowerGroup Brasil, a transformação tecnológica precisa ser acompanhada pela preparação das pessoas. “A automação altera a natureza de determinadas funções e aumenta a demanda por competências digitais, técnicas e de resolução de problemas. Por isso, a modernização da indústria precisa caminhar com a preparação das pessoas”, afirma.
Esse cenário ajuda a explicar por que a indústria passou a buscar um perfil profissional mais amplo. Além do conhecimento específico de cada área, os trabalhadores precisam lidar com ferramentas digitais e compreender como a tecnologia se integra às etapas de produção. A capacidade de aprender continuamente também se torna importante, já que equipamentos, softwares e métodos de trabalho podem mudar em ritmo acelerado.
Medo de substituição convive com confiança para aprender
A percepção dos trabalhadores revela uma combinação de insegurança e disposição para acompanhar a mudança. De acordo com o levantamento, 45% dos profissionais da indústria manufatureira temem que a IA ou a automação substitua sua função atual nos próximos dois anos.
Ao mesmo tempo, a maioria demonstra confiança para participar dessa transição. 66% afirmam estar confiantes para utilizar tecnologias recentes, e 79% acreditam que terão oportunidades para desenvolver novas competências. Os números indicam que o avanço tecnológico não é visto apenas como ameaça, mas também como uma possibilidade de crescimento profissional — desde que existam condições concretas de treinamento.
- 45% temem perder a função atual para a IA ou a automação nos próximos dois anos;
- 66% se sentem confiantes para usar tecnologias mais recentes;
- 79% acreditam que terão oportunidades para adquirir novas competências;
- 60% dizem não ter recebido treinamento em competências nos seis meses anteriores.
Falta de treinamento ainda é um dos principais obstáculos
O ponto de atenção está na distância entre o interesse dos profissionais e as oportunidades oferecidas pelas empresas. Segundo o Barômetro Global de Talentos 2026, 60% dos trabalhadores do setor afirmam não ter recebido nenhum treinamento em competências nos seis meses anteriores.
Essa lacuna pode dificultar a adaptação das equipes e aumentar a insegurança entre os trabalhadores. Se as empresas adotam novas ferramentas sem preparar quem irá utilizá-las, o processo pode gerar perda de produtividade, resistência interna e concentração do conhecimento em poucos profissionais.
Para Nilson Pereira, a disposição para aprender precisa ser acompanhada de ações planejadas. “Existe disposição para aprender e utilizar novas tecnologias, mas ela precisa ser acompanhada por oportunidades de desenvolvimento. A requalificação precisa fazer parte do planejamento da transformação”, diz.
O que é requalificação profissional
Requalificação, também chamada de reskilling, é o processo de preparar um trabalhador para exercer novas atividades ou assumir funções modificadas dentro da própria empresa. Já o aperfeiçoamento de competências, conhecido como upskilling, amplia conhecimentos necessários para a ocupação atual.
Na indústria, essas iniciativas podem envolver treinamento para operação de máquinas automatizadas, uso de sistemas de controle, leitura de informações digitais e desenvolvimento de habilidades técnicas. A necessidade não se limita ao chão de fábrica: áreas de manutenção, logística, engenharia, qualidade e gestão também são afetadas pela digitalização.
Integração da inteligência artificial exige planejamento
A entrada da IA modifica não apenas as tarefas, mas também a forma como as empresas organizam seus processos. Sistemas inteligentes podem apoiar análise de dados, previsão de falhas, controle de qualidade e tomada de decisão. Para que esses recursos funcionem de forma segura e eficiente, entretanto, é necessário definir responsabilidades, treinar as equipes e acompanhar os resultados.
O levantamento indica que 46% dos diretores de tecnologia da informação, os CIOs, da indústria manufatureira declararam que seus esforços de integração tecnológica estavam em fase de implementação. O dado mostra que a adoção já saiu do campo dos planos e começou a avançar dentro das organizações, mas também reforça que a transformação ainda está em andamento.
CIO é a sigla em inglês para diretor de informação ou diretor de tecnologia da informação. Esse profissional costuma coordenar a estratégia tecnológica da empresa, incluindo sistemas, dados, segurança digital e integração de novas ferramentas. Na manufatura, sua atuação precisa estar conectada às áreas de produção e recursos humanos para que a inovação não fique restrita à compra de equipamentos ou softwares.
Impactos para trabalhadores e empresas
Para os trabalhadores, o principal efeito da mudança é a necessidade de atualização constante. A experiência acumulada continua relevante, mas pode precisar ser combinada com conhecimentos digitais e capacidade de operar em ambientes mais conectados. Profissionais que tiverem acesso a treinamento tendem a encontrar melhores condições para acompanhar a transformação.
Para as empresas, o desafio é conciliar investimento em tecnologia com investimento em pessoas. A contratação de especialistas pode acelerar a modernização, mas a requalificação das equipes existentes preserva conhecimento sobre os processos e pode facilitar a adaptação interna. O equilíbrio entre esses dois caminhos será decisivo para a adoção da manufatura inteligente.
Os dados também mostram que a modernização da indústria não deve ser tratada apenas como uma questão tecnológica. Ela envolve emprego, formação profissional e planejamento de longo prazo. Sem programas de desenvolvimento, a automação pode ampliar a diferença entre as competências exigidas pelas empresas e aquelas disponíveis entre os trabalhadores.
O cenário apontado pelos levantamentos é, portanto, de transição: a indústria reconhece que robótica, IA e tecnologias digitais vão transformar suas equipes; os profissionais demonstram interesse e confiança para aprender; mas ainda existe uma lacuna relevante na oferta de treinamento. A preparação das pessoas será um dos principais fatores para definir se a mudança resultará em maior produtividade e novas oportunidades ou em aumento da insegurança no mercado de trabalho.