O alinhamento entre a estratégia de tecnologia da informação e os objetivos de negócios passou a ser a principal prioridade dos CIOs, superando o fortalecimento da cibersegurança, segundo o CIO 2026 Outlook, relatório da Experis, divisão do ManpowerGroup especializada em soluções tecnológicas. O levantamento ouviu 1.930 líderes seniores de tecnologia em 12 países e mostra que a pressão sobre esses executivos aumentou à medida que a inteligência artificial passou a ocupar espaço central nas decisões das empresas.
De acordo com a pesquisa, 48% dos entrevistados apontaram o alinhamento entre tecnologia e negócios como uma das principais ações esperadas dos CIOs. O índice era de 34% em 2025. A cibersegurança, que até então aparecia como a prioridade mais citada, foi mencionada por 37% dos participantes.
A mudança não significa que a proteção de dados e sistemas perdeu importância. Empresas continuam expostas a ataques digitais, vazamentos de informações e interrupções de serviços. O resultado indica, porém, que a área de tecnologia está sendo cobrada para participar mais diretamente das decisões estratégicas e demonstrar como seus projetos contribuem para receitas, produtividade, redução de custos e melhoria dos serviços.
Inteligência artificial ainda não é vista como responsabilidade central do CIO
Mesmo com o avanço da inteligência artificial nas empresas, apenas 17% dos CIOs classificam a entrega de soluções de IA como uma responsabilidade central do cargo. O dado chama atenção porque, ao mesmo tempo, 54% dos líderes de tecnologia afirmam ter obtido retorno positivo sobre os investimentos feitos nessa área.
Na prática, os números mostram uma diferença entre a percepção de resultado e a definição formal das atribuições do CIO. A inteligência artificial já pode gerar ganhos em processos como atendimento ao cliente, análise de dados, automação de tarefas e apoio à tomada de decisões. No entanto, a responsabilidade por essas iniciativas ainda pode estar distribuída entre diferentes áreas, como operações, finanças, marketing e recursos humanos.
O CIO, sigla em inglês para Chief Information Officer, é o executivo responsável por conduzir a estratégia de tecnologia de uma organização. Em muitas empresas, o cargo deixou de estar ligado apenas à manutenção de computadores, redes e sistemas. A função passou a envolver transformação digital, segurança da informação, gestão de dados, inovação e integração entre os departamentos.
Velocidade das mudanças é principal obstáculo para a gestão de tecnologia
O avanço tecnológico também aumenta a dificuldade de planejamento. Para 44% dos entrevistados, acompanhar a velocidade das mudanças é o principal obstáculo enfrentado pela gestão. Novas ferramentas de inteligência artificial, atualizações em sistemas, mudanças regulatórias e riscos digitais exigem decisões rápidas, mas nem sempre as empresas possuem equipes, processos e orçamento preparados para responder na mesma velocidade.
Esse cenário é especialmente complexo porque a adoção de uma tecnologia não termina na contratação de uma plataforma. A empresa precisa avaliar a segurança, preparar os funcionários, adaptar processos, definir responsabilidades e medir os resultados. Sem essas etapas, um projeto pode consumir recursos sem produzir impacto real ou gerar riscos adicionais para o negócio.
- 44% apontam a velocidade das mudanças tecnológicas como o principal obstáculo;
- 61% afirmam que a alta direção ainda não compreende plenamente o papel e as responsabilidades do CIO;
- O índice de executivos que relatam essa falta de compreensão era de 49% em 2025;
- 54% registram retorno positivo nos investimentos em inteligência artificial;
- Apenas 17% consideram a entrega de soluções de IA uma responsabilidade central do CIO.
Falta de compreensão na alta direção aumenta a pressão sobre os CIOs
O relatório aponta que 61% dos líderes de tecnologia consideram que a alta diretoria das empresas ainda não entende plenamente o papel do CIO. O percentual representa uma alta em relação ao ano anterior, quando 49% fizeram essa avaliação.
Essa falta de clareza pode dificultar a definição de prioridades. Quando a diretoria enxerga a tecnologia apenas como uma área de suporte, projetos estratégicos tendem a ser avaliados somente pelo custo. Quando há maior integração, os investimentos podem ser analisados também pelo impacto sobre a operação, a experiência do consumidor, a competitividade e a capacidade de crescimento.
A situação cria uma cobrança dupla para o executivo de tecnologia: entregar resultados concretos e, ao mesmo tempo, explicar de forma compreensível como esses resultados se relacionam com as metas da organização. Na era da IA, essa comunicação se torna ainda mais importante, já que muitas iniciativas são anunciadas antes de terem objetivos, indicadores e critérios de segurança bem definidos.
América Latina vive adoção acelerada e maturidade desigual
Na avaliação de Jorge Gamero, diretor da Experis para a América Latina, a região enfrenta duas situações ao mesmo tempo: organizações que aceleram a adoção da inteligência artificial e uma lacuna relevante no alinhamento entre tecnologia e negócios.
“Na América Latina, vemos uma dupla realidade: de um lado, organizações que estão acelerando a adoção de inteligência artificial; e, de outro, uma lacuna importante no alinhamento entre tecnologia e negócios. O desafio para os CIOs na região não é apenas demonstrar o ROI, mas fazer isso em contextos em que a maturidade digital ainda é desigual”, afirma Gamero.
ROI é a sigla em inglês para Return on Investment, ou retorno sobre o investimento. O indicador é usado para comparar o valor gerado por uma iniciativa com os recursos aplicados nela. No caso da inteligência artificial, medir o ROI pode envolver economia de tempo, redução de falhas, aumento de produtividade ou crescimento de receitas. O cálculo, porém, depende de metas bem definidas e de dados confiáveis antes e depois da implementação.
Em empresas com diferentes níveis de infraestrutura e capacitação, os resultados podem variar bastante. Uma organização com sistemas integrados e profissionais especializados tende a ter mais condições de ampliar uma solução de IA do que outra que ainda enfrenta dificuldades básicas de gestão de dados. Por isso, a tecnologia não elimina a necessidade de planejamento: ela torna essa necessidade mais evidente.
Brasil demonstra disposição para investir em profissionais qualificados
No Brasil, a transição tecnológica também aparece no mercado de trabalho. Dados da Pesquisa de Expectativa de Emprego indicam que os empregadores brasileiros estão mais dispostos a pagar salários premium por competências capazes de sustentar essa mudança.
A valorização de profissionais qualificados está relacionada à dificuldade de encontrar pessoas que reúnam conhecimento técnico e visão de negócio. Empresas precisam de especialistas capazes de trabalhar com dados, segurança, automação e inteligência artificial, mas também de compreender os objetivos da organização e traduzir soluções tecnológicas em resultados práticos.
Para os trabalhadores, esse movimento pode aumentar a procura por formação e atualização profissional. Para as empresas, representa a necessidade de estruturar planos de carreira, capacitação e retenção. A contratação de ferramentas, sem profissionais aptos a administrá-las e integrá-las aos processos, não garante transformação digital.
Governança será decisiva para transformar IA em resultado
O levantamento aponta que o futuro do cargo de CIO tende a ser definido menos pela quantidade de tecnologias adotadas e mais pela capacidade de governar essas soluções. Governança envolve estabelecer regras, responsabilidades, controles, indicadores e critérios para que os investimentos tecnológicos estejam de acordo com os objetivos da empresa.
Essa preocupação é importante no uso de inteligência artificial porque os sistemas podem lidar com dados sensíveis, produzir respostas incorretas ou reproduzir vieses presentes nas informações utilizadas. A empresa também precisa esclarecer quem pode usar as ferramentas, quais dados podem ser inseridos e como as decisões serão revisadas.
Para Gamero, o CIO latino-americano está assumindo uma posição mais estratégica, mas ainda existe espaço para melhorar a compreensão desse papel dentro das empresas. “Sem esse alinhamento, mesmo as iniciativas de IA podem ficar no nível das expectativas e não gerar impacto”, conclui o diretor da Experis.
O cenário descrito pela pesquisa indica que a transformação digital não depende apenas de comprar novas ferramentas. O principal desafio é conectar tecnologia, pessoas e estratégia. Para os CIOs, isso significa provar o valor dos investimentos, fortalecer a segurança, acompanhar a velocidade das mudanças e participar das decisões que definem o futuro dos negócios.