Resíduos que hoje representam custo e risco ambiental podem se transformar em combustível renovável para caminhões, máquinas e outros veículos pesados. Essa é a proposta do avanço do biometano, produzido a partir da decomposição controlada de materiais orgânicos, como resíduos da cana-de-açúcar, dejetos animais e lixo urbano. O tema interessa diretamente a regiões de forte atividade agropecuária e agroindustrial, como o Sul de Minas, incluindo Alfenas e municípios vizinhos.
Todos os dias, cada brasileiro gera, em média, entre 0,7 quilo e 1,2 quilo de resíduos sólidos. Esse volume tende a aumentar com o crescimento da renda e da urbanização. Quando o material orgânico é descartado ou armazenado de forma inadequada, pode liberar metano na atmosfera. O gás tem potencial de aquecimento global muito superior ao do dióxido de carbono, o CO₂.
O aproveitamento energético busca justamente interromper esse ciclo. Em vez de permanecer como passivo ambiental, o resíduo passa por tratamento e pode voltar à economia como fonte de energia. A alternativa também reduz a necessidade de destinação de materiais e pode criar uma nova fonte de receita para empresas, propriedades rurais e municípios.
Como o resíduo vira biometano
O processo começa com a produção do biogás por meio da digestão anaeróbica. Nessa etapa, resíduos orgânicos são decompostos na ausência de oxigênio, geralmente dentro de biodigestores. O resultado é um gás composto principalmente por metano e dióxido de carbono, além de outros elementos em menor quantidade.
Depois, o biogás passa pelo upgrading, nome dado ao processo de purificação. A técnica retira o dióxido de carbono, a umidade e outras impurezas, elevando a concentração de metano. O produto final é o biometano, combustível renovável que pode substituir o gás natural de origem fóssil.
- Resíduos orgânicos são encaminhados para um biodigestor;
- A digestão anaeróbica produz o biogás;
- O gás é purificado por meio do processo de upgrading;
- O biometano pode abastecer frotas pesadas ou ser injetado na rede de gás natural.
Na prática, a tecnologia permite aproveitar materiais que já precisam ser tratados. A vinhaça e a torta de filtro, geradas no processamento da cana, são exemplos de resíduos com potencial energético. Também podem ser utilizados dejetos de animais e resíduos sólidos urbanos, desde que haja separação, tratamento e controle adequados.
Setor sucroenergético concentra grande parte do potencial
O setor sucroenergético aparece como uma das principais frentes para o crescimento do biogás no Brasil. O país tem 345 usinas em operação, sendo quase 92% na região Centro-Sul. O potencial estimado de produção de biogás desse segmento chega a 41,4 bilhões de metros cúbicos por ano.
Apesar da dimensão, menos de 2% desse potencial é aproveitado atualmente. A diferença entre a capacidade disponível e a produção efetiva mostra que a existência de matéria-prima não resolve, sozinha, o desafio. É preciso investir em biodigestores, plantas de purificação, redes de distribuição, conexão com sistemas de gás e veículos adaptados ao combustível.
São Paulo, estado que concentra uma parcela expressiva da atividade canavieira, teria capacidade de produzir entre 8,5 bilhões e 15,5 bilhões de Nm³ de biometano por ano. O dado ajuda a dimensionar o tamanho do mercado e indica que a expansão depende menos da descoberta de novas fontes e mais da estrutura necessária para transformar o potencial em produção comercial.
O que isso representa para Alfenas e o Sul de Minas
Para Alfenas e a região, a discussão está ligada à possibilidade de integrar produção rural, gestão de resíduos e transporte. O Sul de Minas reúne atividades agropecuárias, agroindustriais e uma ampla circulação de cargas. Em um cenário de implantação de projetos, resíduos de propriedades, cooperativas, agroindústrias e unidades de processamento poderiam ser tratados de forma regional, desde que os estudos técnicos comprovem viabilidade econômica e ambiental.
O uso local do biometano também pode reduzir a dependência de combustíveis fósseis em frotas que percorrem longas distâncias. Caminhões, ônibus e equipamentos pesados estão entre os veículos com maior consumo de diesel e, por isso, são alvos prioritários para alternativas capazes de diminuir emissões sem alterar completamente a operação logística.
Isso não significa que a tecnologia possa ser implantada de maneira automática ou imediata. Cada projeto precisa avaliar a quantidade e a regularidade dos resíduos, a distância até os consumidores, os custos de conexão, a qualidade do gás produzido e as exigências de licenciamento ambiental. A escala é determinante: quanto maior e mais constante o fornecimento de matéria-prima, maior tende a ser a viabilidade de uma unidade de produção.
Investimento e políticas públicas são decisivos
O levantamento internacional From Waste to Wheels: Turning Organic Waste into Renewable Fuel for Transport, encomendado pelo Instituto MBCBrasil, destaca que o aproveitamento do passivo ambiental pode fortalecer a transição energética no transporte. A proposta combina duas necessidades: dar destino adequado aos resíduos e ampliar a oferta de combustíveis renováveis.
O presidente do conselho do Instituto MBCBrasil, José Eduardo Luzzi, defende que a importância desse mercado vai além do combustível produzido. A avaliação reforça que a cadeia precisa ser observada como uma oportunidade econômica e ambiental, envolvendo produtores de resíduos, empresas de tecnologia, transportadoras, distribuidoras de gás e o poder público.
Para que o biometano avance, são necessários marcos regulatórios claros, financiamento, planejamento de infraestrutura e políticas que estimulem a compra do combustível. Também é importante garantir padrões de qualidade e segurança, além de mecanismos para comprovar a redução de emissões.
Benefícios e limites da alternativa
Entre os principais benefícios estão a redução do descarte inadequado, o aproveitamento de resíduos, a produção de energia renovável e a possibilidade de substituir parte do diesel e do gás natural fóssil. O processo ainda pode gerar subprodutos que, após tratamento e controle, têm potencial de uso agrícola.
Por outro lado, o biometano não elimina a necessidade de gestão correta dos resíduos. A separação, o armazenamento, o transporte e o tratamento precisam seguir critérios técnicos. Sem planejamento, o projeto pode ter custo elevado ou não alcançar escala suficiente para se manter.
O cenário brasileiro mostra uma oportunidade expressiva, mas também uma distância significativa entre o potencial e a realidade. Para cidades como Alfenas, acompanhar essa agenda significa observar uma área que pode aproximar sustentabilidade, agronegócio, indústria e transporte. A transformação do resíduo em energia, porém, dependerá de projetos bem estruturados, investimentos e decisões públicas capazes de levar a tecnologia do estudo para a operação.